quarta, 23 de agosto de 2017
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Pedro Afonso - TO
Pega nome da pessoa
"Poemizando" a vida

Quando a gente sempre espera pelas segundas-feiras

27/07/2017 11h18

Procrastinação – palavra não muito usual na língua, mas na prática é, digamos que, (quase) sempre. É a ação, ou sendo mais clara: é o pensamento de deixar tudo para mais tarde, depois, amanhã ou sabe se lá quando. Existe um adágio que nos acompanha há tempos: “é a mania brasileira”. Se virou mania ou não, não sei; mas parece ter chegado a esse rumo.

Sem ser metódica, tabela de Excelou agenda. É só por uma rápida e objetiva reflexão mesmo. Esses adiamentos desnecessários acabam demorando resultados e , muitas vezes, felicidade (ou pedacinhos dela). É a dieta que fica para segunda-feira. É a visita ao amigo só para depois de setembro. É o passeio no parque com os filhos, aqui sem chances – só depois dos relatórios do escritório (criança “entende”). É o trabalho voluntário deixado só para o Natal (já tem muita gente fazendo, né?). É o afago sem pressa – melhor deixar para as datas comemorativas. Vou parar porque a sequência só tende a crescer e em progressão aritmética.

A nossa capacidade de adiar é incrível, mas a de criar desculpas é melhor ainda. Parece algo nato. Não que tenhamos que fazer tudo e sempre. O problema começa com o comodismo, o demorar-se nas explicações que, no fundo, sabemos das reais respostas.

Não se tem atitude nas prateleiras de supermercado à venda. Não seria uma má ideia, mas voltemos à realidade: esperar pelas segundas-feiras para começar ou (re)começar sonhos, projetos e tudo aquilo empoeirado dentro de nós, não é a melhor opção. Nunca será uma alternativa sábia. O dia é esse. Agora e sem adiar.




Saudosismo pedroafonsino

15/07/2017 07h48

Lia Raquel

É tarde. Lá fora ainda há o murmúrio de alguns pedestres e de poucos carros. Os semáforos piscam ao dizer que já passa da meia-noite. Deixei a janela aberta de forma proposital – quis contemplar um pouco mais aquela lua redonda e grande. A cortina dança de lá para cá ao brincar com o verto forte. Abri meu guarda-roupa e peguei o edredom mais avantajado em espessura e conforto. Mesmo deitada, não quis dormir. A saudade roubou o sono.

Como em cenas rápidas de filme, minha mente começou a trazer lembranças de um passado um pouco distante. Ali estava eu sendo ora personagem, ora observadora dos fatos. As memórias me puxaram pelo braço e me levaram até a Praça Coronel Lysias Rodrigues. Vi vários colegas uniformizados sentados nos bancos após a sexta aula de segunda-feira. A fonte jorrava água e, juntos, contemplávamos aquela novidade. Antes de voltar para casa, como numa espécie de ritual, passamos na Sorveteria do Didi.

Nessa sequência agradável e saudosa, fui à Rua Constâncio Gomes. Eu quis demorar todo o meu tempo nessa lembrança. Passei minha infância e adolescência subindo e descendo aquela ladeira de bloquetes. No sol, na chuva, a pé, de bicicleta e com a turma. Sempre era festa- quando não tinha na escola, a gente inventava no caminho. Dentro dessa inocência infanto-juvenil vivi dias inesquecíveis.

Peguei meu relógio em cima do criado e me assustei ao perceber que os ponteiros tinham andado rápido demais. Ainda assim me permiti continuar naquela “viagem” gostosa. Passei pela passarela, pelos Rios Sono e Tocantins. Comi peixe assado na praia. Revi muitos colegas. Relembramos a vida. Senti aquele ventinho que o mês de julho traz. Passei pelas ruas históricas, palcos de tantas aventuras. Visitei a cidade toda.

O sono começou a disputar atenção com a saudade, mas não conseguiu. Ela ficou e, na verdade, sempre ficará e sem concorrência. Meu paraíso pessoal cresceu e evoluiu em tamanho e desenvolvimento. Do lado de cá acompanho esse processo. Com seus 170 anos , a querida Pedro Afonso continua deixando essas marcas de lembranças em todos os que já viveram ou passaram por lá.

As memórias insistem em ficar. A bem da verdade nem precisam pedir mais de uma vez. Meu coração deixa sem hesitar. Deixo meus parabéns e orgulho por mais um aniversário dessa cidade tão benquista, amada e única. Daqui, continuarei assistindo a essa história .

De uma pedroafonsina de sangue, alma e coração.
 



Treze segundos

03/07/2017 09h30 - Atualizado em 03/07/2017 09h37

Lia Raquel

Leia com olhos apaixonados e de quem ainda começa a viver agora.

Nas palavras de um poeta fabricado pela vida.


Na era em que a tecnologia domina máquinas, indústrias e o mundo, sobra espaço ainda para que ela dê sua influência às relações de um modo geral. Tem lá seu lado bom. Dizem que tem.

Muitas histórias começam com “Era uma vez” – certo é que estamos cansados de ouvir isso. Improvável seria começar uma história com “Oii”. Notem que a duplicidade da segunda vogal foi proposital.

Ela, uma garota de estatura normal, com seus vinte e poucos anos, acadêmica e cheia de projetos (industriais – outros também, mas no momento só me cabe esse). Veio da terra do guaraná rosa, sudoeste do Maranhão. Deixou por lá os pais, os irmãos e uma boneca em forma de sobrinha. Ficou por lá também, penso eu, muita saudade.

Ele, um garoto alto, com também vinte e poucos anos, mas mais anos que a moça. Detalhe à parte, sem tamanha diferença, mas escrevi. Gosta de versos sem limites e de cálculos (uma contradição). Veio de uma pequena cidade, seu paraíso pessoal. Da mesma forma deixou a família com um contrato de saudade.

Eles se conheceram. A bem da verdade, ainda estão se conhecendo. Um colega em comum, uma foto, poucas informações e a primeira mensagem via aplicativo digital. Assim começou uma versão não muito provável de uma história improvável. O jovem até fez questão de citar “Eduardo e Mônica” ao fazer uma rápida comparação. É Renato Russo, realmente talvez não exista razão nas coisas inventadas pelo coração.

Trocaram mensagens, fotos e perceberam gostos em comum. Viram diferenças também, afinal atire a primeira pedra quem não as tiver. Depois de um pouco mais de dois dias de insistência, o jovem conseguiu ouvir pela primeira vez a voz dela. Foi um áudio heroico com apenas 13 segundos. Com a voz ainda rouca de sono, ela venceu a suposta timidez e sem maiores delongas apertou o botão de enviar. Ele, com seus lábios ainda cerrados, numa mistura de contentamento e mini-vitória pelo fato deu um sorriso ao ouvir aquele áudio tão insistido.

Veio o primeiro encontro. A primeira tapioca. O primeiro olhar chato da garçonete aparentemente chata também. Sem julgamentos. Veio também o primeiro olhar investigando o outro olhar, o primeiro toque na mão, o primeiro abraço e o primeiro beijo. O primeiro sorriso presencial, agora sem o “kkkk” digitado, estava ali.

Numa mistura de querer conhecer e querer bem iniciaram algo ainda sem definição. Coisas do coração. Com (ou sem) razão.
 

A nobreza de um verbo

23/06/2017 07h52 - Atualizado em 23/06/2017 08h02

Lia Raquel 

Talvez fosse o caso de, na língua portuguesa , assim como na química, haver uma lista/tabela com alguns verbos nobres. Dentre os escolhidos, com muita certeza, estaria o “perdoar”. Mais do que um simples verbo da primeira conjugação do infinitivo e com transitividade direta e indireta, “perdoar” nos ensina outras coisas, além dos aspectos gramaticais.

 Em tempos em que o egoísmo é a regra e o altruísmo, a exceção, o perdão é mais raro ainda. Ele aparece, no entanto como doses homeopáticas. Quem sabe a correria tenha nos feito assim, donos de si, apáticos a sentimentos. Teimamos e preferimos não mudar o placar do jogo.

Nessa cena, da vida real e sem ensaios, deixamos palavras mal ditas, afeições pela metade, desentendimentos desnecessários, olhares tortos e doses consideráveis de orgulho.

Desde as primícias da história do mundo, ouvimos, lemos e escutamos que a ausência do perdão decompõe a alma. Essa verdade amadureceu e tomou forma ao passar das eras. O século já é o XXI e a força libertadora do perdão ainda insiste ao querer nos mostrar que ela é a melhor saída para muitos problemas.

Pode soar frase pronta, senso comum, tema de programa de família, discussão religiosa, teoria, seja como for- receber o perdão é dádiva; doá-lo é nobreza. Felicidade é mais doar que receber. Muitas vezes, para uma vida sadia por completo, será preciso retirar algumas coisas de dentro da gente e isso pode ser o perdão. Deixe o peso da mágoa à margem da estrada e siga a placa da paz. A leveza estará logo ali.








 

Sobre o amor – sem ser óbvio

09/06/2017 16h10

Lia Raquel 

O Dicionário Aurélio usa 30 verbetes para explicar o amor. Nietzsche, grande filósofo alemão, de forma bem crítica e única, impactou a emoção à época ao afirmar que há sempre loucura no amor. Vinícius de Moraes pediu perdão por amar de repente. Pablo Neruda, lá do Chile, diz ter amado sem saber como, quando ou onde. Da Jamaica, Bob Marley, ao som do reggae, numa mistura de ritmos e poesia, cantou que um amor é um só coração. Clarice Lispector, conhecida internacionalmente por sua ousadia com as palavras, confessou seu erro na interpretação quanto ao amor – chegou à conclusão de que só se ama verdadeiramente ao somar as incompreensões. Nessa tentativa de também definir algo tão complexo, a dupla sertaneja Matheus e Kauan levou multidões a cantar em uníssono que se o amor bater à porta é sorte. Deixaram a dica.

Seja nas páginas dos livros, nas letras das canções, seja no Brasil, na Itália ou na China. Seja no falar dos intelectuais ou nos ditos populares. Seja em placas, nas pichações, no comércio, nos balões em formato de coração. Seja nos jingles das propagandas famosas. O amor, de alguma forma, vem, existe e fica. Vem sem embalagem, sem rótulos e sem manual de instruções. Cada um à sua maneira. Os poetas teimam ao dizer que essa é a beleza – não nascer pronto. É natural. Acontece e pront . Sem delongas, sem checklist, sem chatices (com raras exceções).

Talvez o amor seja esse “algo” tão bom e indefinido. É essa doação, o colocar-se no lugar do outro ou para quem achar melhor: um sacrifício. Na fala de quem ama há mais tempo, o amor é mais atitude e menos palavras (ou um equilíbrio sincero entre esses dois pontos). É quase impossível, embora haja quem consiga o contrário, amar e não reagir a isso. É a Terceira Lei de Newton na vida real – ação e reação, ou seja, as forças sempre atuam em pares (isso é lindoo!!). Isso para quem achava, assim como eu, que a física estava só em fórmulas.

A bem da verdade, parece que Drummond foi o que conseguiu convencer a maior plateia na sua investida ao clarificar o sentido desse sentimento, ao poetizar que o amor foge de todas as explicações. Todo o mapa-múndi balança a cabeça para concordar com isso. Depois de tudo, acaba ficando a mesma pergunta já ouvida tanto naquela melodia “quantos eu te amo você vai desperdiçar?”


 

Vida que continua vivendo em outra vida – doação de órgãos

30/05/2017 16h27

A partir do século XX o transplante de órgãos passou ao patamar de procedimento cirúrgico. Em outros tempos já haviam ocorrido procedimentos assim, mas ainda de modo tímido. Nesse contexto, a doação de órgãos aumentou consideravelmente. A partir disso, o Estado, de uma forma geral, passou a implantar políticas públicas voltadas ao assunto.

O processo de doação de órgãos implica questões éticas e legais. Em outras palavras: trata-se de um cenário com conflitos entre o potencial doador, o profissional, o familiar e o receptor. São questões que envolvem a moral humana e a sociedade como um todo.

O ato de colocar órgãos vivos em corpos não vivos leva a uma série de leituras de significados, tais como: ao da morte e até mesmo ao da crítica ao próprio processo da doação. No aspecto ético, por exemplo, a questão da morte implica, por um lado, tristeza e medo e, por outro, possibilidade de vida em função da doação. Ainda dentro desse aspecto ético é válido salientar que alguns valores espirituais e filosóficos de cada pessoa atuam como elementos de amparo e conforto para possíveis angústias que a morte pode trazer. A doação de órgãos, por fim, requer postura ética, maturidade emocional individual e desprendimento da matéria.

Nesse cenário, o ordenamento jurídico brasileiro traz, de forma taxativa, dispositivos claros relacionados ao tema em questão. A Constituição Federal de 1988 na seção dedicada à saúde, artigo 199, §4º, elenca que “a lei disporá sobre as condições e os requisitos que facilitem a remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins de transplante, pesquisa e tratamento, bem como a coleta, processamento e transfusão de sangue e seus derivados, sendo vedado todo tipo de comercialização”. Ao lado disso, o Código Civil de 2002, Lei 10.406, enaltece em seu artigo 13 que “ salvo por exigência médica, é defeso o ato de disposição do próprio corpo, quando importar diminuição permanente da integridade física, ou contrariar os bons costumes.” Há ainda a Lei 9.434 de 1997, que trata da Remoção de Órgãos, Tecidos e Partes do Corpo Humano para fins de Transplante e Tratamento, com importantes modificações introduzidas pela Lei 10.211 de 2001 .

Esse tipo de intervenção estatal tem por objetivo impor regras para evitar abusos de terceiros mal intencionados que acabam transformando a doação de órgãos em prática negocial e rentável, o que fere a própria dignidade da pessoa humana – um dos princípios fundamentais da República Federativa do Brasil. Se tal ação fosse permitida, o corpo humano seria relegado a uma categoria inferior à vida e à saúde.

Todavia, a doação não pode implicar em grave comprometimento das funções vitais do doador. O legislador pátrio demonstrou esse cuidado ao inserir isso no §3º, artigo 9º, da Lei 9.434/1997 – a doação somente será deferida quando atender aos seguintes requisitos: representar medida terapêutica indispensável e inadiável à vida do receptor; tratar-se de órgãos duplos ou partes de órgãos, tecidos ou partes do corpo, cuja intervenção cirúrgica para retirada não cause ao doador comprometimento das funções vitais ou deformação.

Dentro dessa conjuntura, há que se falar também da doação legal de partes de cadáveres para instituições de ensino e pesquisa. A lei não se calou quanto ao tema. O Código Civil em seu artigo 14 autoriza a doação voluntária do próprio corpo em vida ao lecionar que “é válida, com objetivo científico, ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte para depois da morte. O ato de disposição pode ser livremente revogado a qualquer tempo”. Ainda, a lei 8.501/92, em seu art. 2º, regulamenta o recebimento de corpos não-reclamados, prevendo que “o cadáver não reclamado junto às autoridades públicas, no prazo de trinta dias, poderá ser destinado às escolas de medicina, para fins de ensino e de pesquisa de caráter científico.”

Dessa forma, ante a análise acima feita, ficam claras as perspectivas éticas e legais no que tange à doação de órgãos. É vida que continua vivendo em outra vida.



 

O país que “Dilmavez” foi coroado por Temer – O misterioso caso de um povo sem democracia

23/05/2017 07h49 - Atualizado em 23/05/2017 09h43

Lia Raquel

Era uma vez um país nem tão grande nem tão pequeno. Foi descoberto, oficialmente, em 1500, mas já havia habitantes por lá: indígenas robustos na aparência e na força. A sua localização, bem estratégica por sinal, logo chamou a atenção de Colombo, de Cabral, de portugueses, de holandeses, de bandeirantes, de jesuítas e a lista, até os dias de hoje, ainda cresce.

Aquela porção de terra da América Latina foi explorada e saqueada. Dizem os estudiosos do assunto que a corrupção data daqui. Pau-brasil, cana de açúcar, ouro, índios e escravos pontuaram a ambição de todos aqueles “brancos”.

A então Ilha de Vera Cruz, nome dado por seu descobridor, logo cresceu sob o assistir de todos aqueles interessados. Já como Brasil, a ilha, às margens do Ipiranga, ao som de “Independência ou Morte”, ganha uma falsa independência dentro de uma sacada política. Agora é Império e palco de interesses da coroa portuguesa. Assim foi seu nascimento social e moral.

Cenário: século XIX. Poder: Deodoro da Fonseca. Conquista: República, mas ainda com corrupções camufladas. As constituições, até então com direitos adormecidos, parecem acordar. O povo, desde sempre, ainda sem saber ao certo o valor e significado da democracia, já tinha escrito na alma os princípios fundamentais da justiça social e da livre iniciativa.

A evolução, ainda que tímida, continuou. Clamaram por diretas já, cantaram Geraldo Vandré, pintaram a cara, conheceram o primeiro Impeachment da história. Segundo nos parece, a sequência do clamor por dias melhores não acabou. A corrupção não é mais encoberta, agora saiu da sua casa e anda por aí de salto alto, com bolsa a tiracolo mostrando o “poder” a todos. Uma vergonha nacional, para não dizer coisa pior.

Continuamos tendo, nas palavras de Ruy Barbosa, uma sensação de vergonha ao ser honesto por tanto ver triunfar as nulidades. Se ainda vivo, esse nobre e inteligente civilista estivesse, choraria amargamente ao contemplar as falcatruas não mais escondidas.

O país lá de cima tem clima tropical, é rico em fauna, em flora, em gente feliz e, infelizmente, em corrupção também. Estouraram a bomba da Lava-Jato. Nem Odebrecht, nem JBS, nem Dilma, nem Lula, nem Aécio, nem Temer conseguiram esconder suas próprias meias verdades. Desde tenra idade somos ensinados que mentira não tem pernas longas. Hoje isso é tão claro! Nem precisaríamos de figura de linguagem para entender.

Se teremos eleições indiretas, conforme dita a Constituição Federal ou se, pela terceira vez, teremos um processo de impeachment, ainda não sabemos.

Como parte do povo, também procuro a democracia nascida na Grécia e apreendida por nós, mas incrivelmente sem vivência. Hoje temos o povo, mas não temos a democracia em seu sentido amplo. Sonhamos com um Palácio que realmente seja Planalto. Sem corrupção, sem Temer e sem temer...
 

Monossílabo indefinido

12/05/2017 08h32

Lia Raquel

Para o dicionário ela é causa: o que é razão de algo ou dá origem. Para a gramática é substantivo feminino. Na Grécia era vista como uma figura mítica e, para o mundo todo, ela é indiscutivelmente única. Como definir algo paradoxal? Seria paradoxalmente ilógico. Como ser singular e plural, pretérito e futuro, calmaria e tempestade – tudo ao mesmo tempo e hora? Só você, mãe. Não há concorrência.

Na bênção ou na complicação. Na mansidão ou nos nossos furacões emocionais. Ela se faz presente de qualquer forma, com qualquer meio. Como se fosse numa espécie de onipresença, em oração, sempre vela por nós, filhos. Obrigada, mãe. Obrigada por ter sido a nossa fã número um desde sempre. Obrigada por ter sido a nossa primeira professora, ouvinte e amiga. Obrigada por sempre nos apresentar o melhor lado da vida. Obrigada pelos sinais e avisos sempre tão certeiros. Obrigada pelas palavras que saram e libertam as nossas ansiedades. Obrigada por ter esse amor sem data de validade e sem limites. Obrigada por ser esse atacado de sentimentos exclusivos. Obrigada por nos enxergar bem melhores do que realmente somos.

Mãe, você sabe curar um machucado com um beijo e consegue tirar os arranhados do coração com um abraço. Mãe, como você consegue fazer tudo isso tendo apenas 24 horas por dia? Vem um eco maternal e lança a resposta: é coisa de Deus. Mãe é bem isso: o cheiro de Deus aqui na terra. É antídoto que alivia as dores em todos os graus. É colo que acalma. É mão que ampara. É olhar que vai além do finito.

Mãe, o seu amor não obedece às leis do tempo e da distância. Esse sentimento extermina as nossas preocupações. Mãe, os nossos problemas se tornam bagatelas, quase nada, quando estamos pertinho de você.

Numa parte do ocidente o seu dia será comemorado agora, mas, para o coração de filho, dia das mães é todo dia e o dia todo. Porque mãe, você é assim: eterna.











 

“É porque nem todo dia a gente quer usar o batom vermelho”

03/05/2017 07h51

Uma sentada ao lado da outra num ambiente que, ao mesmo tempo, combinava a arquitetura francesa à brasileira- foi a cena do início da tarde. O encontro não era fruto da casualidade, mas de um compromisso firmado entre elas. Naquele pedaço de entardecer riram juntas, mais uma vez.

Só quem já se aproximou de um grupo de mulheres ou o teve por algum tempo por perto sabe dizer de maneira plena o significado desse panorama. Sem cronograma, com leque ou sem leque, conseguem discutir política, maquiagem e família numa sentada só. Tiram 43 fotos. Escolhem duas. Postam uma ou a metade de uma.

Volto às mulheres do início sem querer me delongar o bastante. Aguerridas, como quem tira utensílios da bolsa, expuseram assuntos, opiniões e alguns resquícios de lágrimas. O grupo, eclético na religião e nos gostos, conseguia, de uma forma harmônica, unir a diversidade à unidade. Coisa que as mulheres sabem fazer de um jeito bem misterioso. Dizem que é dom natural. Sou indiscutivelmente tentada a ceder a isso.

Há, contudo, outra via: sabem lidar com o sofrimento. Pelo visto ninguém está ileso a tal. É o preço do viver. Acho que aprenderam a permanecer perfeitas dentro de tantas imperfeições. Maestria para poucos.

A tarde seguia. As conversas também. Uma delas, ao ser questionada sobre o porquê das mazelas que insistem em chegar, disse: “é porque nem todo dia a gente quer usar o batom vermelho”. Nem todo dia seremos legais e sorridentes. Não seremos integrantes do time “chatos.com” se assumirmos, vez ou outra, um lado não tão feliz. Só não podemos permanecer nisso. Talvez fosse o caso de aumentar a metáfora. Entendam como quiser e da melhor forma.

Esse é o ritmo. Entre e fique à vontade. Dance a vida ou melhor: “ danser la vie” – com sotaque francês para combinar com a arte do lugar escolhido por elas.
 

Sem utopizar

25/04/2017 09h44

Corrupção. Lava Jato. Operação. Delação. Odebrecht. A lista cresce; não para. Nosso sentimento de indignação social também não. Sensação que dói. Não sara. É o Brasil de cara borrada. É a cor verde-amarelo desbotada. Nas ruas, manifestações. No coração, decepções. Diante dessa onda de sentimentos cabe a pergunta: Aonde vamos chegar? Não tente responder. Melhor não.

Não quero culpar bandeiras políticas. Tentarei ser neutra, sem exposições. A bem da verdade, nossa mente crítica ou algo do tipo, no fundo, sabe de quem é o fardo. Esse embaraço não é de hoje, nem de abril, nem de 2017. É de toda uma história carregada por marcas de uma falha político-moral. Então o povo também é culpado? Se eu abrir margens para essa discussão entraremos naquele discurso meio pronto, mas óbvio: quem colocou os governantes no lugar onde estão? Sim, fomos nós, respondemos em coro. Escolhemos, votamos e acreditamos. Muitos acreditaram errado. E agora? O questionamento ainda sem findar. Agora cá estamos colhendo os frutos, de uma certa forma.

De todo modo, o questionamento aqui não é relacionado a quem começou a lista. Até porque falar disso implicaria voltar décadas, séculos e milênios. A corrupção começou antes de sermos declarados como parte de uma República propriamente dita. De índios a brancos. De Dom Pedro I a Dom Pedro II. De Deodoro da Fonseca a Temer. Temos o enternecedor pressentimento de que (quase) ninguém desse cenário ficou de fora. Ficamos na esperança de que talvez pare nesse ponto. Afinal, a esperança, nas palavras do aluno de Platão, Aristóteles, ainda é o sonho do homem acordado.

A parte boa dessa trajetória é: estamos acordados. Bem acordados. Não dormiremos enquanto a Pátria Amada não for salva desses grilhões partidários. Sonhamos com o desfecho da zelosa Lava Jato e, sem utopia, com fim da lista da “aclamada” construtora.