quinta, 22 de junho de 2017
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Pedro Afonso - TO
Pega nome da pessoa
"Poemizando" a vida

Sobre o amor – sem ser óbvio

09/06/2017 16h10

Lia Raquel 

O Dicionário Aurélio usa 30 verbetes para explicar o amor. Nietzsche, grande filósofo alemão, de forma bem crítica e única, impactou a emoção à época ao afirmar que há sempre loucura no amor. Vinícius de Moraes pediu perdão por amar de repente. Pablo Neruda, lá do Chile, diz ter amado sem saber como, quando ou onde. Da Jamaica, Bob Marley, ao som do reggae, numa mistura de ritmos e poesia, cantou que um amor é um só coração. Clarice Lispector, conhecida internacionalmente por sua ousadia com as palavras, confessou seu erro na interpretação quanto ao amor – chegou à conclusão de que só se ama verdadeiramente ao somar as incompreensões. Nessa tentativa de também definir algo tão complexo, a dupla sertaneja Matheus e Kauan levou multidões a cantar em uníssono que se o amor bater à porta é sorte. Deixaram a dica.

Seja nas páginas dos livros, nas letras das canções, seja no Brasil, na Itália ou na China. Seja no falar dos intelectuais ou nos ditos populares. Seja em placas, nas pichações, no comércio, nos balões em formato de coração. Seja nos jingles das propagandas famosas. O amor, de alguma forma, vem, existe e fica. Vem sem embalagem, sem rótulos e sem manual de instruções. Cada um à sua maneira. Os poetas teimam ao dizer que essa é a beleza – não nascer pronto. É natural. Acontece e pront . Sem delongas, sem checklist, sem chatices (com raras exceções).

Talvez o amor seja esse “algo” tão bom e indefinido. É essa doação, o colocar-se no lugar do outro ou para quem achar melhor: um sacrifício. Na fala de quem ama há mais tempo, o amor é mais atitude e menos palavras (ou um equilíbrio sincero entre esses dois pontos). É quase impossível, embora haja quem consiga o contrário, amar e não reagir a isso. É a Terceira Lei de Newton na vida real – ação e reação, ou seja, as forças sempre atuam em pares (isso é lindoo!!). Isso para quem achava, assim como eu, que a física estava só em fórmulas.

A bem da verdade, parece que Drummond foi o que conseguiu convencer a maior plateia na sua investida ao clarificar o sentido desse sentimento, ao poetizar que o amor foge de todas as explicações. Todo o mapa-múndi balança a cabeça para concordar com isso. Depois de tudo, acaba ficando a mesma pergunta já ouvida tanto naquela melodia “quantos eu te amo você vai desperdiçar?”


 

Vida que continua vivendo em outra vida – doação de órgãos

30/05/2017 16h27

A partir do século XX o transplante de órgãos passou ao patamar de procedimento cirúrgico. Em outros tempos já haviam ocorrido procedimentos assim, mas ainda de modo tímido. Nesse contexto, a doação de órgãos aumentou consideravelmente. A partir disso, o Estado, de uma forma geral, passou a implantar políticas públicas voltadas ao assunto.

O processo de doação de órgãos implica questões éticas e legais. Em outras palavras: trata-se de um cenário com conflitos entre o potencial doador, o profissional, o familiar e o receptor. São questões que envolvem a moral humana e a sociedade como um todo.

O ato de colocar órgãos vivos em corpos não vivos leva a uma série de leituras de significados, tais como: ao da morte e até mesmo ao da crítica ao próprio processo da doação. No aspecto ético, por exemplo, a questão da morte implica, por um lado, tristeza e medo e, por outro, possibilidade de vida em função da doação. Ainda dentro desse aspecto ético é válido salientar que alguns valores espirituais e filosóficos de cada pessoa atuam como elementos de amparo e conforto para possíveis angústias que a morte pode trazer. A doação de órgãos, por fim, requer postura ética, maturidade emocional individual e desprendimento da matéria.

Nesse cenário, o ordenamento jurídico brasileiro traz, de forma taxativa, dispositivos claros relacionados ao tema em questão. A Constituição Federal de 1988 na seção dedicada à saúde, artigo 199, §4º, elenca que “a lei disporá sobre as condições e os requisitos que facilitem a remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins de transplante, pesquisa e tratamento, bem como a coleta, processamento e transfusão de sangue e seus derivados, sendo vedado todo tipo de comercialização”. Ao lado disso, o Código Civil de 2002, Lei 10.406, enaltece em seu artigo 13 que “ salvo por exigência médica, é defeso o ato de disposição do próprio corpo, quando importar diminuição permanente da integridade física, ou contrariar os bons costumes.” Há ainda a Lei 9.434 de 1997, que trata da Remoção de Órgãos, Tecidos e Partes do Corpo Humano para fins de Transplante e Tratamento, com importantes modificações introduzidas pela Lei 10.211 de 2001 .

Esse tipo de intervenção estatal tem por objetivo impor regras para evitar abusos de terceiros mal intencionados que acabam transformando a doação de órgãos em prática negocial e rentável, o que fere a própria dignidade da pessoa humana – um dos princípios fundamentais da República Federativa do Brasil. Se tal ação fosse permitida, o corpo humano seria relegado a uma categoria inferior à vida e à saúde.

Todavia, a doação não pode implicar em grave comprometimento das funções vitais do doador. O legislador pátrio demonstrou esse cuidado ao inserir isso no §3º, artigo 9º, da Lei 9.434/1997 – a doação somente será deferida quando atender aos seguintes requisitos: representar medida terapêutica indispensável e inadiável à vida do receptor; tratar-se de órgãos duplos ou partes de órgãos, tecidos ou partes do corpo, cuja intervenção cirúrgica para retirada não cause ao doador comprometimento das funções vitais ou deformação.

Dentro dessa conjuntura, há que se falar também da doação legal de partes de cadáveres para instituições de ensino e pesquisa. A lei não se calou quanto ao tema. O Código Civil em seu artigo 14 autoriza a doação voluntária do próprio corpo em vida ao lecionar que “é válida, com objetivo científico, ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte para depois da morte. O ato de disposição pode ser livremente revogado a qualquer tempo”. Ainda, a lei 8.501/92, em seu art. 2º, regulamenta o recebimento de corpos não-reclamados, prevendo que “o cadáver não reclamado junto às autoridades públicas, no prazo de trinta dias, poderá ser destinado às escolas de medicina, para fins de ensino e de pesquisa de caráter científico.”

Dessa forma, ante a análise acima feita, ficam claras as perspectivas éticas e legais no que tange à doação de órgãos. É vida que continua vivendo em outra vida.



 

O país que “Dilmavez” foi coroado por Temer – O misterioso caso de um povo sem democracia

23/05/2017 07h49 - Atualizado em 23/05/2017 09h43

Lia Raquel

Era uma vez um país nem tão grande nem tão pequeno. Foi descoberto, oficialmente, em 1500, mas já havia habitantes por lá: indígenas robustos na aparência e na força. A sua localização, bem estratégica por sinal, logo chamou a atenção de Colombo, de Cabral, de portugueses, de holandeses, de bandeirantes, de jesuítas e a lista, até os dias de hoje, ainda cresce.

Aquela porção de terra da América Latina foi explorada e saqueada. Dizem os estudiosos do assunto que a corrupção data daqui. Pau-brasil, cana de açúcar, ouro, índios e escravos pontuaram a ambição de todos aqueles “brancos”.

A então Ilha de Vera Cruz, nome dado por seu descobridor, logo cresceu sob o assistir de todos aqueles interessados. Já como Brasil, a ilha, às margens do Ipiranga, ao som de “Independência ou Morte”, ganha uma falsa independência dentro de uma sacada política. Agora é Império e palco de interesses da coroa portuguesa. Assim foi seu nascimento social e moral.

Cenário: século XIX. Poder: Deodoro da Fonseca. Conquista: República, mas ainda com corrupções camufladas. As constituições, até então com direitos adormecidos, parecem acordar. O povo, desde sempre, ainda sem saber ao certo o valor e significado da democracia, já tinha escrito na alma os princípios fundamentais da justiça social e da livre iniciativa.

A evolução, ainda que tímida, continuou. Clamaram por diretas já, cantaram Geraldo Vandré, pintaram a cara, conheceram o primeiro Impeachment da história. Segundo nos parece, a sequência do clamor por dias melhores não acabou. A corrupção não é mais encoberta, agora saiu da sua casa e anda por aí de salto alto, com bolsa a tiracolo mostrando o “poder” a todos. Uma vergonha nacional, para não dizer coisa pior.

Continuamos tendo, nas palavras de Ruy Barbosa, uma sensação de vergonha ao ser honesto por tanto ver triunfar as nulidades. Se ainda vivo, esse nobre e inteligente civilista estivesse, choraria amargamente ao contemplar as falcatruas não mais escondidas.

O país lá de cima tem clima tropical, é rico em fauna, em flora, em gente feliz e, infelizmente, em corrupção também. Estouraram a bomba da Lava-Jato. Nem Odebrecht, nem JBS, nem Dilma, nem Lula, nem Aécio, nem Temer conseguiram esconder suas próprias meias verdades. Desde tenra idade somos ensinados que mentira não tem pernas longas. Hoje isso é tão claro! Nem precisaríamos de figura de linguagem para entender.

Se teremos eleições indiretas, conforme dita a Constituição Federal ou se, pela terceira vez, teremos um processo de impeachment, ainda não sabemos.

Como parte do povo, também procuro a democracia nascida na Grécia e apreendida por nós, mas incrivelmente sem vivência. Hoje temos o povo, mas não temos a democracia em seu sentido amplo. Sonhamos com um Palácio que realmente seja Planalto. Sem corrupção, sem Temer e sem temer...
 

Monossílabo indefinido

12/05/2017 08h32

Lia Raquel

Para o dicionário ela é causa: o que é razão de algo ou dá origem. Para a gramática é substantivo feminino. Na Grécia era vista como uma figura mítica e, para o mundo todo, ela é indiscutivelmente única. Como definir algo paradoxal? Seria paradoxalmente ilógico. Como ser singular e plural, pretérito e futuro, calmaria e tempestade – tudo ao mesmo tempo e hora? Só você, mãe. Não há concorrência.

Na bênção ou na complicação. Na mansidão ou nos nossos furacões emocionais. Ela se faz presente de qualquer forma, com qualquer meio. Como se fosse numa espécie de onipresença, em oração, sempre vela por nós, filhos. Obrigada, mãe. Obrigada por ter sido a nossa fã número um desde sempre. Obrigada por ter sido a nossa primeira professora, ouvinte e amiga. Obrigada por sempre nos apresentar o melhor lado da vida. Obrigada pelos sinais e avisos sempre tão certeiros. Obrigada pelas palavras que saram e libertam as nossas ansiedades. Obrigada por ter esse amor sem data de validade e sem limites. Obrigada por ser esse atacado de sentimentos exclusivos. Obrigada por nos enxergar bem melhores do que realmente somos.

Mãe, você sabe curar um machucado com um beijo e consegue tirar os arranhados do coração com um abraço. Mãe, como você consegue fazer tudo isso tendo apenas 24 horas por dia? Vem um eco maternal e lança a resposta: é coisa de Deus. Mãe é bem isso: o cheiro de Deus aqui na terra. É antídoto que alivia as dores em todos os graus. É colo que acalma. É mão que ampara. É olhar que vai além do finito.

Mãe, o seu amor não obedece às leis do tempo e da distância. Esse sentimento extermina as nossas preocupações. Mãe, os nossos problemas se tornam bagatelas, quase nada, quando estamos pertinho de você.

Numa parte do ocidente o seu dia será comemorado agora, mas, para o coração de filho, dia das mães é todo dia e o dia todo. Porque mãe, você é assim: eterna.











 

“É porque nem todo dia a gente quer usar o batom vermelho”

03/05/2017 07h51

Uma sentada ao lado da outra num ambiente que, ao mesmo tempo, combinava a arquitetura francesa à brasileira- foi a cena do início da tarde. O encontro não era fruto da casualidade, mas de um compromisso firmado entre elas. Naquele pedaço de entardecer riram juntas, mais uma vez.

Só quem já se aproximou de um grupo de mulheres ou o teve por algum tempo por perto sabe dizer de maneira plena o significado desse panorama. Sem cronograma, com leque ou sem leque, conseguem discutir política, maquiagem e família numa sentada só. Tiram 43 fotos. Escolhem duas. Postam uma ou a metade de uma.

Volto às mulheres do início sem querer me delongar o bastante. Aguerridas, como quem tira utensílios da bolsa, expuseram assuntos, opiniões e alguns resquícios de lágrimas. O grupo, eclético na religião e nos gostos, conseguia, de uma forma harmônica, unir a diversidade à unidade. Coisa que as mulheres sabem fazer de um jeito bem misterioso. Dizem que é dom natural. Sou indiscutivelmente tentada a ceder a isso.

Há, contudo, outra via: sabem lidar com o sofrimento. Pelo visto ninguém está ileso a tal. É o preço do viver. Acho que aprenderam a permanecer perfeitas dentro de tantas imperfeições. Maestria para poucos.

A tarde seguia. As conversas também. Uma delas, ao ser questionada sobre o porquê das mazelas que insistem em chegar, disse: “é porque nem todo dia a gente quer usar o batom vermelho”. Nem todo dia seremos legais e sorridentes. Não seremos integrantes do time “chatos.com” se assumirmos, vez ou outra, um lado não tão feliz. Só não podemos permanecer nisso. Talvez fosse o caso de aumentar a metáfora. Entendam como quiser e da melhor forma.

Esse é o ritmo. Entre e fique à vontade. Dance a vida ou melhor: “ danser la vie” – com sotaque francês para combinar com a arte do lugar escolhido por elas.
 

Sem utopizar

25/04/2017 09h44

Corrupção. Lava Jato. Operação. Delação. Odebrecht. A lista cresce; não para. Nosso sentimento de indignação social também não. Sensação que dói. Não sara. É o Brasil de cara borrada. É a cor verde-amarelo desbotada. Nas ruas, manifestações. No coração, decepções. Diante dessa onda de sentimentos cabe a pergunta: Aonde vamos chegar? Não tente responder. Melhor não.

Não quero culpar bandeiras políticas. Tentarei ser neutra, sem exposições. A bem da verdade, nossa mente crítica ou algo do tipo, no fundo, sabe de quem é o fardo. Esse embaraço não é de hoje, nem de abril, nem de 2017. É de toda uma história carregada por marcas de uma falha político-moral. Então o povo também é culpado? Se eu abrir margens para essa discussão entraremos naquele discurso meio pronto, mas óbvio: quem colocou os governantes no lugar onde estão? Sim, fomos nós, respondemos em coro. Escolhemos, votamos e acreditamos. Muitos acreditaram errado. E agora? O questionamento ainda sem findar. Agora cá estamos colhendo os frutos, de uma certa forma.

De todo modo, o questionamento aqui não é relacionado a quem começou a lista. Até porque falar disso implicaria voltar décadas, séculos e milênios. A corrupção começou antes de sermos declarados como parte de uma República propriamente dita. De índios a brancos. De Dom Pedro I a Dom Pedro II. De Deodoro da Fonseca a Temer. Temos o enternecedor pressentimento de que (quase) ninguém desse cenário ficou de fora. Ficamos na esperança de que talvez pare nesse ponto. Afinal, a esperança, nas palavras do aluno de Platão, Aristóteles, ainda é o sonho do homem acordado.

A parte boa dessa trajetória é: estamos acordados. Bem acordados. Não dormiremos enquanto a Pátria Amada não for salva desses grilhões partidários. Sonhamos com o desfecho da zelosa Lava Jato e, sem utopia, com fim da lista da “aclamada” construtora.

 

Feliz dia

16/04/2017 10h30

Lia Raquel 

Hoje, mais uma vez, é dia de lembrar que é possível recomeçar, começar ou até mesmo (re) começar pela sétima, ou, quem sabe, pela milésima vez. Passamos os últimos dias com a memória no trajeto de Jesus – as tentações passadas por Ele, Sua morte e ressurreição.

O real sentido da Páscoa, sem contar os coelhos e ovos de chocolate, leva-nos a uma reflexão sadia e que ultrapassa o próprio domingo comemorativo, as semanas, os meses e os anos. Do hebraico “Pessach”, páscoa significa passagem por retomar a história dos judeus depois da saída do Egito, quando a comemoraram pela primeira vez. Séculos depois, na ocasião da morte e ressurreição de Cristo, essa data passou a ser celebrada como lembrança de vida nova.

Faço uso de um jargão ao pedir que atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de sumir por alguns minutos ou quem chegou a pensar que tudo estava perdido. Sem querer escrever mensagem de autoajuda – Páscoa tem esse sentido que deveria seguir com a gente o ano todo: o de (re)viver. Cristo venceu e nos deixou a certeza do triunfo também.

A musiquinha popular questiona o que o coelho pode trazer para nós (“Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim?). Eu respondo: nada, eu penso. A sua fé, sim, fará você galgar desafios. Acredite. Feliz Páscoa hoje, amanhã e todo dia!
 

Um atraso bom

12/04/2017 14h21

Lia Raquel

Nunca gostei de esperar – seja alguém, uma consulta, uma resposta. Nada. Isso faz parte da minha natureza inquietante. Coisa de (ser) humano. Contudo, naquele dia foi diferente. Estava eu ali sentada enquanto o médico não chegava. De um lado, revistas meio desatualizadas. Do outro, pessoas de todos os jeitos e falas. Lá fora o sol pintava o céu ao se juntar ao azul anil quase desbotado. O dia estava agradável. Bem agradável.

Por ser apaixonada por crianças, logo notei um garotinho “proprietário” de um sorriso tão cativante ao ponto de eu ficar presa a ele por um bom instante. Serelepe, corria sem parar. Tentava também balbuciar algumas palavras naquela língua só compreendida pelas mães. Eu ainda forcei minha imaginação, mas não foi o suficiente para entender muita coisa. Depois de entrar no mundo do menino sorridente, eu já queria mesmo era o atraso do Dr. Por um momento demorado eu desejei o retardo dos ponteiros. Eu consegui me infiltrar naquele universo de inocência e de pureza infante.

Meu atendimento estava marcado para as 10h. Alguns minutos já haviam se passado. Fiquei feliz. Quando me dei conta, o “mini-homem” estava bem pertinho de mim. Comecei a mostrar meu celular na tentativa de conseguir colocá-lo no meu colo. Essa foi uma técnica meio boba, mas até que funciona e funcionou. Vibrei com a minha pequena vitória.

Juro que nutri uma espécie de diálogo com o menininho (mesmo sem entender coisa nenhuma). Foi uma terapia não planejada. Mal soube ele que isso me fez um bem sem nominação. Fiz cócegas. Consegui arrancar daqueles pequenos lábios mais sorrisos ainda. Brinquei. Fizemos uma festa imaginária em meio àqueles azulejos brancos com aquele cheiro típico de desinfetante pinho sol. Eu já nem queria mais a minha consulta. Queria só aquele riso pueril.

Coincidência ou não, o médico atrasou e atrasou muito. Pela primeira vez na vida eu vibrei por minutos a mais.

 

As nossas redes de cada dia

03/04/2017 09h23

Lia Raquel

Sob o olhar aguçado do médico Lucas, deparamo-nos, no capítulo cinco de seu livro, com um relato um tanto surpreendente.

O autor de um dos quatro Evangelhos, sempre muito detalhista, narra a cena em que Jesus desafia dois dos seus futuros discípulos a jogarem as suas redes de pesca ao mar. A ação seria normal se não fosse o fato de que eles, Simão e seu companheiro, já tivessem efetuado esse trabalho a noite anterior toda, porém sem sucesso.
Ante a ordem do Mestre, poderiam hesitar ou até mesmo duvidar (talvez lá no “fundinho” dos pensamentos as dúvidas teimaram em fazer festa). Com toda certeza, até então eles estavam sem qualquer tipo de expectativa.

 No entanto, aqueles pescadores decidiram confiar na ordem dAquele que sempre foi e é capaz de fazer bem mais do que pedimos ou pensamos. Como um brado de fé, Simão assim disse: “Não pegamos nada, mas pela Tua palavra, lançarei as redes”. Eles lançaram as redes e foram totalmente felizes em sua escolha: pegaram uma quantidade tão grande de peixes que mal conseguiram erguê-la e colocá-la dentro do barco.

Digo mais: conosco não é diferente. Todos os dias passamos por situações que humanamente falando são impossíveis de serem resolvidas. Tentamos jogar as “redes” para todos os lados e nada acontece. A diferença está no tamanho da dependência depositada em Jesus. Isso não significa facilidade e tranquilidade totais, mas garantirá leveza aos nossos fardos. Cristo carregará todos eles se assim permitirmos. A bem da verdade, estamos todos navegando nesse barco da vida. Ora temos as coisas benquistas, ora não. Talvez hoje você não tenha conseguido “pegar” nada com as suas “redes”. Ainda assim, lance-as da mesma forma. Não por você, mas pela ordem de Jesus.

 

Infungibilidade

29/03/2017 07h59 - Atualizado em 29/03/2017 08h01

Ele tinha vontade de amar sem medo. Apenas por amar mesmo; sem se preocupar com o que passava no interior do outro lado, já que o amor é cheio dessas coisas de trazer certeza e segurança (jurídica?). O jovem cá falado tem um sentimento inquilino em seu coração há um bom tempo. O aluguel está atrasado e o que ele mais quer mesmo é vendê-lo ou melhor: doá-lo.

Não o colocou à venda porque sempre têm inadimplentes amorosos por aí e não estava com pique para cobrar juros nem correções monetárias emocionais. Existe uma necessidade, um dossiê indecifrável, desejos da juventude, perfume de jasmim, toque amadeirado, uma saudade sem tradução, aqui a parte decifrável é que dentro dele viaja tudo isso.

Nesse contexto de borbulhações de sentimentos passa por ele uma infungibilidade de palavras, o viver de forma inexpressível, talvez seja o morador sem fiador que não quer sair dali. O rapaz quer que tudo isso vá embora, mas não para longe – teme, vai sentir falta, vai doer. A melhor alternativa é que uma parcela dessa afeição continue lá com ele e a outra invada (sujeita à Reintegração de Posse) o coração do outro alguém. Invasão com efeito extensivo.

Amando aqui, amando lá. Carinho cá, carinho lá. Beijos aqui, beijos lá. Felicidade cá, felicidade lá e assim o aqui e o ali, o cá e o lá se completarão diariamente sem receio da tempestividade, da competência ou até mesmo sem a inquietude da impossibilidade do pedido (ou do receber?). Já percebia esse andarilho, corrente de exposição sentimental. Confessou não ser drama, nem tampouco requisitos para uma Petição.

É esse aluguel atrasado que tem feito todas as suas dívidas acumularem. A sua Ação de Despejo emocional (com dó, ele diz), dará um novo rumo à sua vida, com ajuda dos anjos, é claro! Não do cupido! Porque pelo que bem parece ele ficou apenas nas redondezas de Hollywood.