sábado, 24 de junho de 2017
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Pedro Afonso - TO
Pega nome da pessoa
"Poemizando" a vida

Infungibilidade

29/03/2017 07h59 - Atualizado em 29/03/2017 08h01

Ele tinha vontade de amar sem medo. Apenas por amar mesmo; sem se preocupar com o que passava no interior do outro lado, já que o amor é cheio dessas coisas de trazer certeza e segurança (jurídica?). O jovem cá falado tem um sentimento inquilino em seu coração há um bom tempo. O aluguel está atrasado e o que ele mais quer mesmo é vendê-lo ou melhor: doá-lo.

Não o colocou à venda porque sempre têm inadimplentes amorosos por aí e não estava com pique para cobrar juros nem correções monetárias emocionais. Existe uma necessidade, um dossiê indecifrável, desejos da juventude, perfume de jasmim, toque amadeirado, uma saudade sem tradução, aqui a parte decifrável é que dentro dele viaja tudo isso.

Nesse contexto de borbulhações de sentimentos passa por ele uma infungibilidade de palavras, o viver de forma inexpressível, talvez seja o morador sem fiador que não quer sair dali. O rapaz quer que tudo isso vá embora, mas não para longe – teme, vai sentir falta, vai doer. A melhor alternativa é que uma parcela dessa afeição continue lá com ele e a outra invada (sujeita à Reintegração de Posse) o coração do outro alguém. Invasão com efeito extensivo.

Amando aqui, amando lá. Carinho cá, carinho lá. Beijos aqui, beijos lá. Felicidade cá, felicidade lá e assim o aqui e o ali, o cá e o lá se completarão diariamente sem receio da tempestividade, da competência ou até mesmo sem a inquietude da impossibilidade do pedido (ou do receber?). Já percebia esse andarilho, corrente de exposição sentimental. Confessou não ser drama, nem tampouco requisitos para uma Petição.

É esse aluguel atrasado que tem feito todas as suas dívidas acumularem. A sua Ação de Despejo emocional (com dó, ele diz), dará um novo rumo à sua vida, com ajuda dos anjos, é claro! Não do cupido! Porque pelo que bem parece ele ficou apenas nas redondezas de Hollywood.
 

Maria, Bendita entre as mulheres!

20/03/2017 07h38

A mulher no Oriente Antigo, de modo geral, não tinha privilégios e tampouco participava da vida pública. O pátrio poder era exercido sobre as filhas menores até elas se casarem e depois era transferido para o “marital poder”; dele dependiam totalmente. Analisando tal situação, foi percebida a importância de focar nesse tema, já que as páginas da história também contêm exceções, na medida em que as próprias pessoas se tornam ou possam se tornar sujeito de sua existência. Destacarei, aqui, a vida de uma jovem mulher, humilde e do povo, mas que se tornou especial até os nossos dias. O nome dela é Maria e podemos encontrar fragmentos de sua história registrados nos evangelhos do Novo Testamento.

“O anjo levava uma mensagem para uma virgem que tinha o casamento contratado com um homem chamado José, descendente do rei Davi. Ela se chamava Maria” (Lucas 1,27). Assim, o livro de Lucas começa a narrar a trajetória dessa jovem, que mais tarde seria a “bendita entre as mulheres”. Maria teve medo e em seu frágil coração uma mistura de admiração e surpresa pulsara ardentemente. A notícia estava dada: Ela traria o Messias ao mundo porque o “Espírito Santo descerá sobre ti e o poder do Altíssimo te envolverá numa sombra” (Lucas 1,35).

No Magnificat (Canto de Maria- Lucas 1, 39-56), manifesta-se a alegria de Maria, que louva os feitos de Deus no passado e no presente, na sua vida pessoal e na vida de seu povo. Esse canto ecoa e vem aos dias de hoje, podendo ser ouvido em cada momento de louvor e quando a dor e alegria são compartilhados. No entanto, o papel social dessa jovem mulher não se resumiu apenas à concepção e nascimento de Jesus. Maria, em seu magnificat, falou por e junto a milhares de pessoas, anunciando a graça de Deus e denunciando as situações de injustiça que deveriam e devem ser transformadas.

Maria se faz presente não só na infância de Jesus, quando o educa e o conduz, juntamente à sua família, para os primeiros rituais religiosos ao templo em Jerusalém. Ela está presente no movimento de Jesus: na realização do primeiro milagre, nas Bodas de Caná da Galileia. Ela participa de toda a jornada de Jesus aqui na Terra: sua primeira aparição em público, seus milagres, suas pregações, ensino (...). Não cumpria apenas seu papel materno, mas também o de discípula fiel que acompanha seu filho até o momento mais difícil: na cruz, onde ela chorou suas mais dolorosas lágrimas. Maria, porém, não contempla só a cruz, mas, junto a outras mulheres discípulas, testemunhou igualmente a vitória da ressurreição. Renovada na esperança, ela partilha da fé da primeira comunidade judaico-cristã em Jerusalém (Atos 1,14).

A propósito, essa jovem mulher, Maria-mãe-discípula, com humildade, coragem e determinação participou da história salvífica, deixando à humanidade Aquele que gerou: “Santo, Filho de Deus”. Por tudo isso, ela foi e continua sendo bendita.

Maria, mulher, mãe, bendita. A mulher que soube revelar postura firme mesmo quando todos os ventos sociais sopravam ao contrário de seus costumes e atitudes. Que ela seja bendita também para nós, diante de nossos tantos desafios e incertezas.
 

Oito de Março

08/03/2017 11h10

Lia Raquel

Erasmo Carlos, ao brincar com as palavras, poetizou que mUlhEr só não é mElhOr por pura malandragem das vogais. Esse trocadilho, muito criativo por sinal, traz verdades absolutas. O melhor realmente está na mulher, mesmo que as vogais permaneçam trocadas. O amigo de Roberto Carlos foi feliz ao ter nos ofertado esse trecho de composição.

A mulher, desde que veio ao mundo, soube, de uma forma ou outra, provocar mudanças (boas!). Há exceções, mas falo aqui da regra. A história mundial me ajuda a fundamentar essa proeza verdadeira, duradoura e dinâmica. Muitos são os fatos que ultrapassaram anos, épocas e séculos. Marie Curie, por exemplo, entre homens e mulheres, foi a primeira a ganhar dois prêmios Nobel em áreas científicas. Outras, mesmo com acirrados preconceitos, conseguiram se sobressair. Cito Hipácia como modelo. No Egito, ela foi acusada de bruxaria e morreu de forma brutal enquanto seguia seus estudos em filosofia, matemática e astronomia.

A memória universal também conheceu Maria Quitéria de Jesus, a primeira mulher a entrar em combate pelo Brasil. Essa militar, símbolo de resistência, precisou se disfarçar de homem para assim poder lutar contra os portugueses nas batalhas travadas pela Guerra da Independência.

Agora não preciso caminhar muito para apresentar enredos diários de uma vida não tão comum. Ela consegue ter vários atributos ao mesmo tempo. É capaz de ser mãe, filha, nora, sogra, irmã, esposa, profissional. Às vezes adolescente. Outras vezes, adulta. Menina. Moça. Senhora. Você. Mulher de domingo, de segunda, de terça e quarta. Bem como de quinta, de sexta e de sábado . É você , mulher de 2017, do dia 8 de março, de hoje, de sempre. Parabéns – esse substantivo masculino se rende a você em forma de saudação integral e de gratidão.


 

Heróis (in) visíveis

24/02/2017 08h32 - Atualizado em 24/02/2017 08h52

Lia Raquel

Pelo menos em algum momento de nossa vida já ouvimos falar desses heróis que a mídia apresenta tão bem. Eles são cheios daquilo que a nossa mente denomina como fantástico. Até conseguimos nos envolver, um pouco ou não tão pouco assim, com esses momentos mágicos. É o homem salvador da pátria vestido com uma capa preta; é o jovem voador, mais conhecido como Superman, que saiu do seu planeta distante para ajudar as pessoas em apuros por aqui – ele só não pode ter nenhum contato com restos do seu lugar de origem : a kriptonita (seu ponto altamente fraco); vimos em filmes e desenhos um homem ser picado por uma aranha estranha e, a partir disso, tornar-se vigoroso em poder – sempre tive a impressão de sufoco ao vê-lo com aquela máscara apertada, mas a valia aqui é quanto à admiração devotada em seu favor.

As referências de heróis e heroínas não se limitam a essa lista. Muitos são os poderes inventados e arquitetados a fim de manterem a nossa atenção em êxtase. Acabam conseguindo esse feito. Não quero desanimar seus ânimos. Sei que seu coração voltou a ser criança por alguns minutos ao fazer um breve passeio nesses desenhos. Espere. Gostaria, muito mesmo, que você olhasse ao seu lado agora.

Esse agora pode ser quando você voltar ao trabalho, à escola, à sua comunidade religiosa, à faculdade, ou melhor, ainda: ao seu lar. Depois dessa parada, faça, como experiência boa, uma breve análise das pessoas vizinhas da sua companhia. Sim, isso mesmo. Essa é a tarefa de casa. Se preferir, pode ser de agora. Hoje. Cada pessoa tem seu lado heroico. São heróis reais. Sem ficção. São protagonistas de uma vida que acontece todo dia e o dia todo. São de carne. São humanos. Não sabem voar. Não possuem teias de aranha com poderes surreais e costumam não mudar de cor quando alteram o humor. São normais e vivem conosco. Heróis que conseguem sobreviver com um salário mínimo. Heróis que acordam antes do raiar do sol e vão em busca do sustento para os seus. Heróis que não se acomodam ante uma política mesquinha e corrupta. Heróis que quase não falam nada, mas dão permissão às suas próprias atitudes para o representarem. Heróis em forma de mulheres que conseguem, de uma forma bem heroica mesmo, cuidar da casa, dos filhos, do marido, do trabalho, da sogra, das unhas, da chapinha, do cachorro, dos gatos e a sequência só acaba porque ela precisa dormir e repor seus ultrapoderes. Esses heróis vivem dentro da gente, quando assim permitimos.

Apresento a vocês esses heróis fora dos gibis, dos mangás e das telas. Eles conseguem sair das páginas da ficção e são capazes de produzir ações super- poderosas de verdade. Sendo mais exata, quando praticamos e amamos o bem, conseguimos ser sim esses tais heróis. É deles de que o mundo precisa. Heróis que ultrapassam telas, páginas e enredos. Heróis que cuidam da família e que amam a Deus sobre todas as coisas. Heróis que cuidam do próximo com carinho e dedicação. Heróis que colam no coração a fé no maior dos heróis de todos os tempos: Jesus.






 

Sobre Lídia – uma mulher diferenciada

Lia Raquel 

Será com essa evocação que o presente texto fará uma leitura de resistência no contexto de Atos 16, 11-15. A narrativa apresenta Lídia, vendedora de púrpura, mas antes de permear nessas linhas é necessário que seja entendido como funcionava o patriarcado em Roma. O patriarcado romano, portanto, é de dominação e ocupação geopolítica, de exploração de recursos naturais e humanos, de violência física, sexual e psicológica contra todas as pessoas, de expansão e construção na base do trabalho escravo e na imposição de impostos e tributos. Esse patriarcado é a macroestrutura, dentro da qual se organizará a vida, a convivência e a resistência a partir de microestruturas como a casa, a comunidade, a associação profissional. Esse patriarcado, não define apenas as relações em nível do macrossistema, mas também e principalmente a partir do microssistema, que se reflete principalmente nas relações de casa. (REIMER,2006,p.74).

Cícero, um grande ideólogo da teoria estatal romana, afirmou a estrutura patriarcal de dominação. Há uma diferença entre a ética romana e a judaica nesse período: enquanto o ethos romano afirma a obediência submissa como “agradecimento” ao sustento garantido pela figura paterna, o judaísmo apresenta uma teologia, na qual os filhos devem honrar e respeitar pai e mãe.

Diante dessas inquietudes, a “pax romana” nos leva a algumas considerações dignas de importância: a mulher aqui é mantida de forma invisível, oculta, geralmente ela não aparece a não ser as esposas em sentido patriarcal e legal, ao gerarem filhos legítimos como herdeiros. A mulher não era amada como os filhos. Aos filhos era dado o “amor natural” e às mulheres (esposas) o “amor marginalizado”.

Fazendo um recorte histórico e ideológico nesse contexto, Lídia de Lídia será chamada a fazer parte do palco de ousadia econômica e de luta contraposta ao patriarcado romano. Lídia veio de Tiatira, uma cidade da província da Ásia Menor. A origem do seu nome é incerta. Para alguns estudiosos pode ter sido a designação de sua cidade ou um nome comum para designar escravos. Seu envolvimento é destacado no desenvolvimento da missão e é uma das poucas mulheres mencionadas pelo nome no livro de Atos.

A cidade agora é Filipos, cidade da Macedônia, colônia romana. Por pertencer à Roma, é notório que as leis romanas imperavam. Paulo e Silas depois de terem navegado de Trôade, seguiram à Samotrácia e no dia seguinte à Neápolis. Dali, chegaram a Filipos e foram até um rio e lá encontraram um grupo de mulheres reunidas (adeptas à religião judaica), “em um lugar de oração”. Lídia, porfiropólis, escuta-os e aceita a mensagem apesar de o texto já mencionar que ela era temente a Deus. Depois de ela e sua família terem sido batizadas, solicitou enfaticamente: ‘Se julgastes que eu sou fiel ao Senhor, então entrai na minha casa e permanecei’. E ela os forçou a entrar. (Atos 16, 11-15)

O escritor de Atos usa o termo proseuché para designar um espaço tipicamente judeu. A prouseché era uma construção sinagogal: um lugar destinado à celebração de cultos sabáticos, reuniões de oração e de estudo da Torá. (REIMER, 1995, p. 71). Muitas inscrições testificam comunidades judaicas em todo o território do Império Romano, desse aspecto foi retirado o teor da expressão no original grego proseuché. Lídia é o centro das atenções em Atos 16. Ela é apresentada como vendedora de púrpura (porfirópolis), esse termo aparece outras vezes na Escritura, mas no Novo Testamento, o termo é visto somente aqui. A cor púrpura era retirada tanto da extração vegetal como da extração animal. A de origem animal resultava de determinados caramujos marítimos, encontrados apenas em alguns lugares. Essa púrpura era muito cara, era usada nos mantos dos reis e demais artigos de luxo. Na região da Ásia Menor, na cidade de Lídia, as pessoas retiravam cores de vegetais. Essa cidade era muito conhecida por suas tinturarias e foi dessa cidade que Lídia veio. Imitavam a púrpura animal. Nesta região a púrpura era retirada de uma planta chamada rúbia. O trabalho de Lídia era amplo, pois consistia em produzir a tinta, tingir lãs e roupas, e vendê-las.

Depois da ocupação da maioria dos países em torno do Mar Mediterrâneo, aumenta o número de pessoas desempregadas, que migram para as periferias das cidades e passam a desenvolver toda espécie de artesanatos e manufaturas. É ali que se desenvolve o pequeno comércio: a venda das mercadorias produzidas para sustento próprio, como bem apresenta a teóloga Ivoni Richter.

Lídia está inserida nesse grupo de pessoas, pois o seu árduo trabalho era realizado por um grupo de pessoas que se assentavam em algum lugar, nas periferias devido ao trabalho sujo realizado (com as tinturas) e trabalhavam todas juntas. Aproveitando esse segmento é fato que a “casa” de Lídia pode ser aqui interpretada. O grupo de mulheres reunidas para a celebração das orações durante os sábados pode ter sido o grupo que tralhava na extração da púrpura vegetal, configurando assim uma “Lídia Líder”.

Nesse momento histórico não existia uma classe média autêntica. Havia a minoria rica e a maioria empobrecida. Dentro dessa maioria estava aquelas pessoas que trabalhavam com pequeno comércio, artesanato e confecção de tecidos e outros artigos, o que comprova a situação financeira de Lídia.

Lídia de Lídia pode ser contemplada como um exemplo vivo de resistência ao patriarcado romano. Numa sociedade em que o pater famílias (exercido pelo pai) dominava a economia, a mulher da Ásia menor é apresentada como negociante, vendedora de púrpura. Debruçar-se em tal fundamento é entender que ela não se rendeu às leis que excluíam as mulheres da economia. No aspecto religioso sua voz também pode ser ouvida, nos sábados, nas proseuché, junto a um rio...

Lídia , seja no trabalho público ou no espaço sinagogal, representou as mulheres de seu tempo de forma autêntica e ousada. Ela não se permitiu calar ante a sociedade patriarcal romana. Apesar de posteriormente a igreja ter passado por processos de hierarquização patriarcal de poderes, sua atuação não foi ofuscada.

O legado dessa mulher sai de Filipos e chega até nós, homens e mulheres, mas ele não chega solitário – um convite o acompanha: “Entrai em minha casa e ficai”. Ficai com a luta, com a liberdade sem medo, tingida de púrpura, no frescor de um rio...



























 

Sobre o céu

07/02/2017 08h35

Fico impressionada ao notar que a correria tem tomado conta de nossas vidas. Começando pelo despertar rápido, o almoço engolido, a aula à tarde ou o trabalho. Resultado: à noite, o corpo chama pelo descanso. Conversas aceleradas e relacionamentos distantes – esse é o quadro moderno no qual estamos inseridos. É frustrante saber que faço parte da geração “Sem tempo”.

Falei para Deus a respeito da minha preocupação quanto a isso e por saber que meus pensamentos não estavam voltados para minha vida futura com Ele. Queria uma experiência diferente, sentir um pedaço do céu aqui na terra, mesmo com tantos afazeres e estresse. A experiência veio: numa tarde de sábado, eu e quatro amigos fomos visitar um colega no hospital. Ele havia sofrido um acidente de moto e seu pé ficara em situações preocupantes. Chegamos ao centro ortopédico e logo nos dirigimos ao apartamento 110. Ele ficou muito feliz com a nossa presença. Um dos que foram comigo começou a falar do céu, das maravilhas que teremos lá – vida eterna, presença de Jesus para sempre e ainda “AO VIVO”, conversar com os anjos, dentre tantas outras.

Naquela tarde sabática senti saudade do céu, saudade do Mestre Amado. Senti a necessidade de pensar mais nas coisas lá do alto. Deus espera muito mais de mim, mais que leituras rápidas da Bíblia, mais que orações repetidas, mais que um cristianismo com muitas falas e quase nada de atitudes. Ele quer entrega, devoção, envolvimento com a Sua causa, amor pelo próximo, desapego ao mundo e à correria que é oferecida. Mais do que nunca percebi a necessidade da pressa de pensar no céu, no abraço de Jesus e de tocar, agora, o Seu coração. Naquelas horas vespertinas aprendi também que o céu, muitas vezes, começa aqui na Terra. Perto do meu próximo. Fazendo o bem. Sempre.

Essa emoção tomou conta não só do meu ser, mas de todos que estavam ali. Quanto ao meu amigo enfermo, não preciso nem falar...
 

Contrato de risco

30/01/2017 08h15

Lia Raquel

“Não tenho coragem” – era tudo que dominava sua mente há um bom tempo. Ele já estava acostumado a esses sentimentos que chegavam sem avisar e iam invadindo a alma assim de mansinho. Sim, para muitos não passava de uma simples naturalidade, mas para ele significava espinho na alma, empacadores da calma. O jovem evitava todo o novo, o estranho. Machucar-se era a última coisa que queria. Tudo era pensado antes de ser dito. Ele não se considerava frio e calculista, mas estava perto de ser.

O coração dele parecia ter medições: “até aqui posso gostar, não posso passar disso!”. Ele queria amar, saber na prática o significado desse verbo, mas as inquietudes o dominavam, o temor de não ser correspondido, a vergonha de um possível não martelavam sua cabeça! Aprendera a viver apenas no seu mundinho fantástico.

Poderia afirmar que era uma espécie de vítima de suas idiotices emocionais. Não que fosse idiota porque quisesse, mas seu medo o tornou prisioneiro. Na leitura do grande escritor Fábio de Melo “ele havia se roubado dele”. Medo de dizer “ Eu te amo”; “Você faz falta”; “Perdão”; “Desculpa”; “Preciso de você”. Coisas simples. Seus pensamentos diariamente mergulhavam nas ondas das incertezas, das incompreensões. A ansiedade o dominava. O jovem não vivia, apenas respirava ali com seus medos.

O tempo foi ganhando forma em sua vida. Dias, meses e anos se passaram. O triste é que seus atormentadores sentimentos não seguiram o ritmo do tempo, das horas. As emoções dele continuaram borbulhando sem refúgio aparente. Ele não deu oportunidade para o NOVO envelhecer, não se permitiu reescrever sua história e o mais deprimente de tudo foi o fato de ele não ter percebido que havia assinado o maior contrato de risco da humanidade: CONTRATO VIDA.



A grandiosidade dos detalhes

20/01/2017 10h59 - Atualizado em 20/01/2017 17h29

Só vive bem quem aprecia a grandiosidade dos detalhes. Juro que escrevi sem intenções de filosofia de vida, mas, pensando bem, vai acabar sendo algo do tipo. Filosofia simples. De dias simples. De vida simples. Porque a felicidade é simples.

Não é fácil se desprender da rotina. Acordar, fazer algumas preces, comer, malhar, estudar, trabalhar, comer outra vez, estudar um pouco mais e dormir - primeiro dia. Essa sequência se repete até a próxima sexta e assim a agenda biológica tem fixas essas tarefas diárias. Sair dessa ordem pode até gerar uma espécie de caos na zona conforto (e gera mesmo).

Por outro lado, viver uma rotina diferente ou semidiferente chega a ser questão de sobrevivência, afinal, viver é recomeçar e reinventar a própria vida, os hábitos e os gostos.

Ganhar ou dar o riso se tornou tarefa mais árdua que tempos passados. A beleza da risada sem a necessidade de acessar e assistir a vídeos com milhões de visualizações, hoje, é escassa. Ainda é (muito) possível encontrar graça todo dia e digo mais: nas pequenas coisas. Veja a vida que acontece lá fora, nem que sejam as cuspidas de pérolas do céu (as estrelas, assim definidas pelo famoso poeta russo) ou até mesmo essa aí dentro de você – a mais interessante de todas. Ache graça. Ache vida.
 

Clarice: simples e sem enfeites

08/12/2016 15h12 - Atualizado em 12/12/2016 08h43

Lia Raquel

Se você estivesse aqui, mesmo com toda sua seriedade e poucos sorrisos, eu me atreveria a "te encher de abraços". Você, com certeza, ficaria assustada, mas sei que, de alguma forma, daria algum carinho de volta – nem que fossem dois versos pensados em menos de um minuto –, algo muito fácil para uma mente brilhante e humilde.

Clarice Lispector, minha amada escritora, poetisa, crítica literária, hoje, comemoraríamos juntas o nosso aniversário, o dia do palhaço e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Você se foi bem antes de eu nascer. Se tivéssemos vivido na mesma época, juro que teria enviado uma carta à TV Gazeta contando do meu sonho literário: conhecer você e todas as suas proezas simples e sem enfeites (o que você fazia questão de falar nas suas entrevistas). Eu levaria um bloco com mais de 50 folhas e anotaria cada palavra, cada dica e as respostas aos meus questionamentos (que não seriam poucos).

Como alguém consegue escrever sobre uma barata e ao mesmo tempo nos ensinar lições de vida de uma forma tão contagiante? Como falar de saudade de uma forma tão intensa e misteriosa? Eu te agradeceria pelas lições que aprendi com Macabéa em “A Hora da Estrela” e por tanta leveza vinda dos seus escritos. Sua obra foi muito vasta. Seus versos (in)termináveis de paixão sadia me ensinaram sobre uma das coisas que mais amo nessa vida: escrever. Eu li você várias vezes e leria quantas vezes fosse preciso...

... E com essa metonímia deixo a minha eterna saudade (sim, aquela saudade , como você mesmo dizia, “das coisas que tive e de outras que não tive, mas quis muito ter!”) . Espero encontrá-la na eternidade. Se lá tiver dia 10 de dezembro ou algo parecido, cantaremos juntas o nosso Parabéns.

Sua fã de vida e poesia.

 

Vinte e seis

30/11/2016 17h07 - Atualizado em 30/11/2016 17h11

Lia Raquel

Nem venha me dizer que o ano passou rápido, que as promessas não foram todas cumpridas – inclusive a dieta funcionou até a terceira semana, mas melhor nem comentar sobre o açúcar mascavo intacto dentro do pote amarelo –, que os livros ficaram pela metade (alguns eu passei da metade. Lispector há de me perdoar e Lewis também) e que a poupança rendeu um pouco mais de 2%.

Mal comecei a executar meus objetivos de janeiro e agora já me vejo escrevendo mês 12. Agora quando chego à parte da música em que a Simone canta “Então é Natal e o que você fez? O ano termina e nasce outra vez”, além de ficar com o choro entalado, tenho a infeliz sensação de que tomei 1 litro e meio de culpa. Eu me engasgo. O que eu realmente fiz? Bem, posso dizer que alcancei muitas coisas, mas, confesso, deixei muitas outras pelo caminho. Coisas que eu realmente precisei deixar guardadas, enterradas ou até abandonadas nos meses da vida e outras que, por procrastinação mesmo, acabei não realizando. Se você acha nisso alguma semelhança, não se sinta constrangido - “tamo junto”.

Estou cansada, no melhor e mais positivo sentido da palavra, de ler sobre conselhos e lições de vida. Acabei chegando à conclusão de que aquela máxima “só se aprende vivendo” é mais que autoexplicativa. É uma pura e doída verdade. Em breve sairei dos 26 anos (um minuto de silêncio). Resolvi listar alguns mantras que acabei aprendendo e vendo na prática (valem o gerúndio e essa ambiguidade aqui). Dizem os patriarcas que não há nada novo debaixo do sol. Sou influenciada a concordar com isso. Do que aprendi nesse último ano, não há novidade, mas são lições de que eu posso dizer sem medo: gente, o que elas dizem quanto a isso realmente é verdade!!!

Cá estão as 26 duras e, às vezes não tão duras assim, verdades bem verdades que aprendi aos 26 anos:

1- Nem todo mundo que diz “Eu te amo” a você realmente te ama – pode ser simplesmente pelo fato de você ser uma pessoa útil e legal – tá, isso dói, mas passa;

2- Embora você possa achar que todas as suas bênçãos estejam congestionadas no céu, tenha a certeza de que Deus JAMAIS (em caixa alta e negrito) esquece de você. É porque, na maioria das vezes, nosso hoje é o amanhã dEle. TUDO (aqui até em itálico e sublinhado) tem seu tempo;

3- Você pode ter muuuuuitos colegas, mas amigos são pouquíssimos – depois dos seus pais e irmãos, vai sobrar pouca gente na hora dos problemas;

4- Seu irmão/irmã é, ao mesmo tempo, a pessoa mais chata que habita nesse planeta e a que te defende de tudo e de todos – isso inclui até o olhar chato da mulher, também chata, do caixa do supermercado;

5- Não conte seus projetos a quem não estiver disposto a caminhar contigo desde o início deles;

6- Não diga “sim” se você não estiver a fim de cumprir a promessa;

7- Aprenda a dizer NÃO! Isso pode evitar muitas dores de cabeça (físicas e até emocionais);

8- Não digo que “praga de mãe pega”, mas se ela te deu um aviso/conselho/dica/mandou msg/falou por áudio/chamou você no canto para falar sobre aquela amizade, namoro, etc – a minha dica é: ouça!!! Na maioria das vezes, leia-se 99,9%, ela terá razão não por ser perfeita (porque não é), mas pela experiência de vida e amor a você;

9- Não há livro mais completo, sincero e que provoque tantos crescimentos como a Bíblia;

10- Aprenda a cozinhar (além de ovos e miojo);

11- Use protetor solar sempre (em algum momento não tão distante sua pele vai te cobrar isso);

12- A falta de exercícios físicos dói no corpo e na alma;

13- Não confie em pessoas que sempre arrumam motivos para falar mal de alguém. Na parte em que eu disse “não confie”, entenda como “corra de”;

14- A ingratidão é o apodrecimento do coração;

15- A gratidão é virtude para poucos, eu disse poucos, quero dizer pouquíssimos;

16- Seus pais (biológicos, adotivos, os que te deram amor) costumam ser melhores e fieis amigos. Confie neles;

17- O tempo passa rápido demais. Com clichê ou sem clichê, esse sentimento é amargo;

18- Com fé e disciplina, muita, muita coisa é alcançada. Você pode ter fé, mas se não tiver disciplina, seus sonhos não passarão nem do bloco de notas;

19- Aniversários, casamentos, bodas, formaturas e batismos são momentos únicos na vida de uma pessoa. Evite faltá-los. A sua consciência sempre dará um jeito de deixar um lembrete na sua memória do tipo “poxa, por que eu não fui?”;

20- Doe (amor, carinho, surpresas, etc) sem esperar ganhar de volta na mesma proporção. Seu coração intenso vai agradecer diariamente;

21- Observe as crianças e os idosos. Eles têm muito a nos ensinar. Aprendo muito com a inocência das primeiras e com a sabedoria dos segundos;

22- As melhores coisas da vida não passam no cartão de crédito;

23- Cuidar da saúde física, espiritual e emocional é mais que obrigação. No futuro pagaremos, bem ou mal, por isso;

24- Os verdadeiros amigos, de uma forma ou outra, sempre dão um jeito de estar por perto;

25- A vida nunca estará perfeita para o próximo passo. É preciso seguir mesmo com os problemas;

26- Aprendi que aprendi muito pouco ainda. A vida é gaveta ora aberta, ora fechada. Se a abro, correrei muitos riscos, mas se a fecho, ficarei inerte sem poder desfrutar do melhor presente dela: VIVER.