terça, 21 de fevereiro de 2017
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Pedro Afonso - TO
Pega nome da pessoa
"Poemizando" a vida

Conversa (in) esperada

16/09/2016 09h31

Lia Raquel 

Seus olhos pareciam cansados. Ali, sentada no banco, vi aquela mulher já com algumas rugas trazidas talvez pela idade ou, quem sabe, preocupações. Depois de alguns minutos de conversa eu comecei a entender o porquê daquele cansaço.

 Os pássaros estavam eufóricos. A fonte de água jorrava tão forte no grande lago que algumas gotas conseguiam chegar com pressa até nós. Sensação gostosa. Sem incômodos. Aquele ambiente era satisfatório para um piquenique com a pessoa amada, um passeio com as crianças ou um bate-papo com a melhor amiga, mas nada disso me aconteceu naquele dia. Por uns minutos fitei aquela mulher. Ela segurava um livro e tentava lê-lo com seus óculos sem pernas. Tentei, por curiosidade mesmo, enxergar a capa do exemplar, mas em vão, não consegui descobrir – eu havia esquecido do meu par de lentes (sendo bem sincera, aqueles óculos quebrados que o nariz dela teimava em segurar seriam úteis para mim naquele momento). Eu também me esforcei para disfarçar a minha breve espiada em sua direção. Acredito que, de início, ela não desconfiou. Ela permaneceu lendo e eu continuava observando sem maiores descobertas.

Até então só tinha saído um “boa tarde”, mas depois que vi água em seus olhos, não me contive. Comecei a soltar algumas frases prontas, velhos clichês sobre o clima e o tempo, até eu poder, de alguma forma, conversar de verdade. Tive a sensação de que ela também aguardava por esse momento.

Foram necessários apenas alguns minutos para eu perceber quanta dor aquele coração guardava. Maria, aqui darei a ela esse nome, carregava fardos pesados e resolveu passar pelo bosque em busca de um descanso temporário. Ali estava ela com meia idade, sem emprego, com contas atrasadas e com a história de um amor rompido. Notei que a tristeza foi se dissipando. Os olhos permaneciam cansados, mas o que me impressionou foi a sua fé. À medida que fomos trocando palavras rápidas pensei de forma mais rápida ainda: Que fé!

Parecia que nada ia bem, mas ela me disse de forma bem categórica: “vai passar! Eu acredito em dias melhores! Você é jovem ainda e ainda vai viver muita coisa e não desista de ser feliz!”.

Pensei na minha vida. Pensei nos meus projetos e nas vezes em que reclamei sem razões maiores. A conversa me rendeu uma nova amiga. Trocamos números de telefones e já nos adicionamos nas redes sociais. Naquela tarde tive o doce privilégio de aprender mais uma vez que “apesar de” a vida ainda pode ter gosto bom e muito bom.
“Não desista de ser feliz!”, foi o que ela me disse naquela tarde. Hoje digo o mesmo a você.

 

Mais que paixão

05/09/2016 11h35 - Atualizado em 05/09/2016 15h25

Lia Raquel

Imagine você orando e de repente uma voz angelical a dizer: “Retorne a oração daqui 37 minutos, Deus está muito ocupado, não pode atendê-lo. Sou o anjo secretário”. Você, tristemente, volta à rotina e aguarda o horário chegar.

Somos privilegiados e graças a bondade e ao amor de Deus não precisamos marcar dia e hora para falarmos com Ele. Na agenda do Criador sempre haverá espaço para nós.

Já que somos tão únicos, especiais e amados de Deus por que, na maioria das vezes, entregamos a Ele as sobras dos nossos minutos corridos? Por que assistir à TV, curtir fotos e comentar legendas se torna tão interessante ao ponto de oferecermos a Ele apenas aquela oração decorada e aquele versículo de sempre? O que tem ocupado o seu tempo? Quais são as suas preferências?

A oração é a nossa maior e mais profunda ligação com o céu. É uma espécie de cordão umbilical. De lá conseguimos todos os nutrientes necessários para guerrear. Viver um dia sem falar com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo é como querer achar atalhos em desertos: podem até existir, mas são perigosos. Tirar o que vai dentro da alma para colocar nas mãos dAquele que é infinitamente poderoso para fazer bem mais do que pedimos ou pensamos, é reconhecer que somos dependentes dEle.

Passar tempo com Deus é antecipar aqui na terra as maravilhas que nos aguardam na eternidade. É impossível conhecer Jesus e ficar calado. É impossível ter as bênçãos da oração e não querer compartilhá-las com todos. Viver experiências com o Rei do Universo e guardá-las para si é humanamente desumano. Viver por Jesus é mais que uma paixão. Falar com Ele e falar dEle à nossa geração é mais que uma necessidade.

Stephen R. Covey em seu livro “7 hábitos das pessoas altamente eficazes”, página 194 , diz que o segredo não é priorizar a agenda, mas sim agendar as prioridades. Quem tem o Amigo Perfeito como prioridade diária não consegue viver sem ensinar isso aos outros. Que Deus ocupe, a partir de hoje, o primeiro lugar em nossa agenda e coração.
 

Sem lágrimas, lenços e dores

22/08/2016 10h39 - Atualizado em 22/08/2016 10h47

Lia Raquel Mascarenhas 

Ele enxugará dos olhos deles todas as lágrimas. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor. As coisas velhas já passaram”. Apocalipse 21:4

Outro dia, enquanto eu estava hospedada na casa de uma família querida, presenciei uma cena profunda e emocionante vinda da moradia ao lado. Não ouvi palavras, mas pude “ouvir” sentimentos pulando das mãos daquela mãe. Logo fiquei sabendo que aquela senhora havia perdido seu filho em um trágico acidente aéreo.

Naquela manhã, eu a vi pela janela da cozinha segurando fortemente um porta-retratos. Ela o acariciava de uma forma tão amorável e intensa que foi impossível conter as minhas lágrimas. Não pude ver a foto, mas, pelas circunstâncias, era o retrato do seu filho amado. Meu coração ficou apertado.

Uma amiga minha tinha o costume de dizer que quando alguém querido vai nascer, há muita preparação. Todavia, quanto o assunto é o ausentar-se dessa vida, ninguém se prepara. Não há uma prévia dos preparativos para a morte. É verdade. Não fomos feitos para morrer e a nossa natureza insiste em não aceitar essa passagem fúnebre.

O nosso maior conforto é o de que as pessoas que morreram em Cristo estão apenas em um sono leve. Quando Cristo aqui retornar, elas despertarão euforicamente felizes e o melhor de tudo: totalmente transformadas em todos os aspectos! Todas as tristes lembranças, as memórias doloridas e todo sofrimento serão apenas pó do esquecimento. Nunca mais precisaremos de lenços- Ele, Jesus, tomará a frente e enxugará todas as nossas lágrimas. Tudo, absolutamente tudo de ruim, ficará para trás. Meu coração sussurra um amém bem forte agora.

Ali no céu, encontraremos os nossos queridos que no momento dormem debaixo da terra. Aquela mãe espera em Jesus o grande reencontro com o seu filho. Lá, não teremos tempo para ficarmos tristes. Nem lembraremos que um dia existiu o sentimento de angústia. A alegria será eterna. A felicidade infinita. Abraçaremos os nossos amados incansavelmente. Que esse dia chegue logo para matarmos logo essa saudade sufocante. Oremos a Jesus carinhosamente: Apressa-Te , Senhor.
 

Gravata, relógio e cafuné

12/08/2016 09h33 - Atualizado em 12/08/2016 09h35

Lia Raquel Mascarenhas

A vida, às vezes, chama algumas datas à nossa lembrança. Felicidade não tem dia nem hora certa para ser comemorada, mas é possível que isso aconteça. O calendário gregoriano, utilizado aqui no Ocidente, precisamente no Brasil, faz uso do segundo domingo de agosto para saudar aqueles que chamamos de pai, painho, paizinho, pãe (refiro-me aqui às mães que são pais também) ou como nosso coração desejar. Eles não precisam esperar o segundo semestre do ano chegar a fim de serem saudados. No entanto, valemo-nos dessa data com o intuito de deixar mais claro ainda a nossa estima por esse ser tão singular.

Ser pai e ter um pai é presente imensurável vindo dos céus. Pai, seja de DNA, de criação ou por consideração, é abraço de Deus na Terra. É aconchego que transborda o copo da alma. É mão que sustenta nos dias mais escuros. É braço que acolhe quando a caminhada cansa. É riso que abriga nossos maiores medos. É colo que recebe o corpo exausto das lutas diárias.

Agradecemos a você pai por tantas noites mal dormidas, quando em preocupação torcia por nossa melhora. Obrigada por ter nos ensinado a andar de bicicleta e nos consolar na primeira queda. Obrigada por ir até hoje ao nosso quarto apenas para verificar se estamos cobertos e seguros. Obrigada por não medir esforços na realização dos nossos sonhos. Obrigada por ficar tão feliz com as nossas grandes e pequenas conquistas. Obrigada pelos conselhos tão bem colocados. Obrigada por sempre querer o nosso bem mesmo quando isso implique abrir mão das suas próprias vontades.

Deixamos a você o nosso eterno sentimento de gratidão. Desculpe-nos pelas birras que ainda insistem em se prolongar. Desculpe-nos porque, até hoje, não aprendemos a fazer o nó da sua gravata. Desculpe-nos pelas vezes em que te fizemos ficar olhando horas a fio o relógio da parede esperando a nossa chegada. Hoje deixamos aqui o nosso amor a você, mas queremos também o seu único e inconfundível cafuné.


 

Meu barulho

08/08/2016 09h15 - Atualizado em 08/08/2016 09h38

Lia Raquel Mascarenhas

Aprendi que o silêncio é a mais “gritante” das situações e meu coração não se habituou a conviver com ele. Tenho dentro de mim uma necessidade constante de barulho.

Não algo que chega para incomodar, mas que fica e marca. Desejo o barulho da minha vida interiorana. O barulho das águas do Rio Sono. O barulho da prima me chamando lá fora ou mesmo o som daquela buzina meio rouca. Dentro de mim há uma inquietação pelo som dos pássaros que diariamente me acordavam ali na tão querida Rua 8.

O barulho deixou cicatrizes de saudade em mim. Não sei se um dia deixarei de sentir essa falta que arde no meu peito a ponto de fazer meu coração chorar.
Enquanto esse momento não toca a campainha da minha vida, ficarei aqui gritando as minhas emoções para que os ecos alcancem 1000 km.
 

Palavras àqueles que já tiveram o privilégio de conhecer essa amada e benquista cidade

15/07/2016 18h20 - Atualizado em 15/07/2016 18h24

Lia Raquel Mascarenhas

É tarde. O sol alaranjado pinta o céu antes todo azul. O pôr-do-sol tem uma beleza una contemplada logo ali da pracinha da Igreja. A natureza parece pintar um quadro sem borrões. É difícil passar por lá sem a vontade imediata de registrar aquela cena. Como protagonistas, pássaros cantarolam felizes enquanto se achegam às palmeiras. A cena se repete diariamente por volta das 18h. É uma rotina inquietante e ninguém aqui se cansa disso. Tudo na vida da gente parece ter um gosto. Cenas assim têm gosto de nostalgia, de sabor prolongado, de coisa boa.

 Pedro Afonso é poesia com rimas que chegam do Rio Sono, do Rio Tocantins, da fauna e flora ricas. Os versos dessa amada cidade tomam forma no sorriso amigo dos que ainda têm o saudoso costume de se assentar à porta da casa ao final do dia. Aconchego de ilha e de calor que arde (e deixa saudade) são saudações pedroafonsinas a todos aqueles que se permitem conhecer essa terra.

 Hoje as felicitações se voltam a ela – nossa amada e benquista cidade. Como devotos e fãs assumidos declaramos nossa admiração, gratidão e amor a essa história de 169 anos! Terra de Frei Rafael de Taggia. Terra de todos. Nossos parabéns se estendem às conquistas, à “libertação do jegues”, à memória de uma cidade que cresceu em tamanho, lutas e sucesso.

Pedro Afonso é palco dessa vida que acontece toda hora. Quem aqui mora, já morou , visitou ou deu uma passadinha tem vivas no coração essas lembranças que nunca morrem.

 Amada e linda cidade, "por te amar e querer tanto" deixo minha saudade em forma de palavras. Saudade das águas que molham a alma e enxugam os medos. Saudade de toda essa história que recomeça todos os dias.



“As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”

24/06/2016 07h53 - Atualizado em 24/06/2016 08h01

Lia Raquel

Procuro as minhas raízes, o meu povo, a minha cultura e tudo o que encontro é uma saudade desbotada pelas distâncias da BR-153. Não sinto o abraço daquele sol prazeroso (e quente) logo cedo. Não vejo o suor na testa dos pedestres nem ouço reclamações pelo calor. Os girassóis se distanciam e só os vejo em pensamento naquela grande praça. A carne seca ficou na saudosa cozinha familiar. Os “s” bem utilizados nas “lissstas” e “passsteis” seguido dos “r” soam em minha mente.

 A alegria de ouvir um “Tu” bem falado é complemento dessa ansiedade por cultura perto, dentro de mim. O falar rápido, agoniado e com energia – quanta falta! Sei que sempre restará essa vaga cultural, incômoda e inexorável. Esse caçulinha tem deixado lembranças. É o caçula do Brasil, mas já tem história de gente grande. A saudade me aperta nos costumes, no sotaque, nas pessoas, na política, no tempo e na distância.

Cá posso até ter muita coisa, mas não na mesma intensidade quanto junto ao meu “menino estatal”. Abro a minha janela. As aves gorjeiam, mas não gorjeiam como lá…



Quando as pelejas são de Deus

13/06/2016 17h39 - Atualizado em 13/06/2016 17h41

“Durante a batalha clamaram a Deus, que os ajudou, entregando os hagarenos e todos os seus aliados nas suas mãos. Deus os atendeu, porque confiaram nele. E muitos foram os inimigos mortos, pois a batalha era de Deus. Eles ocuparam aquela terra até a época do exílio. '' I Crônicas 5: 20 e 22- Versão Internacional

 As tribos de Rúben, Gade e metade da tribo de Manassés – do leste de Israel – saíram para guerrear contra os hagarenos e seus aliados. Naquela época a disputa por bens e territórios era questão de sobrevivência. Soldados e lutas faziam parte de um contexto comum. A arte de guerrear era conjugada diariamente pelos povos israelitas e seus vizinhos.

No entanto, essa batalha foi diferente das demais. Diferente não pela quantidade de soldados ou pela inovação no armamento, mas pela decisão que tomaram. A tropa hebreia, antes de sair para articular seu plano de defesa contra o exército inimigo, colocou -se à inteira dependência de Deus.

Pediram a ajuda de Deus antes de colocarem as armaduras. Confiaram nEle antes de qualquer ataque. Porque pediram e porque confiaram, Deus acolheu o anseio daqueles militantes. A relação de causa e efeito é intensamente viva, primeiro pediram e na sequência confiaram no Senhor dos Exércitos. Deus atendeu ao clamor porque a luta era dEle. O Grande Rei ouviu a prece não porque aqueles soldados eram melhores que os hagarenos ou porque eram mais fortes, mas tão somente porque pediram e confiaram em Seu poder.

Todos nós temos desafios de segunda a segunda. A vida é exigente e, muitas vezes, é fácil pedir a ajuda divina, mas o “confiar” torna-se mais oneroso. Há lutas que não cabem a nós, mas a Deus. Tudo o que Ele deseja de sua raça humana é a junção do duelo “pedir e confiar”. Isso exige habilidade, pois só conseguimos confiar em algo ou em alguém quando o conhecemos verdadeiramente.

Antes de sair para os combates do dia, peça e confie nEle. A luta é mais dEle do que sua.
 

Amor de varanda

30/05/2016 17h41 - Atualizado em 30/05/2016 17h43

Lia Raquel

“Era outono, amor. Não acredito que sua memória vai falhar logo agora”, brincou o Sr. Veiga com a sua companheira.

“Tanta coisa aconteceu naquela noite (…). Lembrar da estação é apenas um detalhe à parte, meu querido ”- foi a autodefesa da Srª. Margot.

Depois de 40 anos juntos, contando aqui o período do namoro, noivado e casamento, o casal olhava a sacada de onde surgiram as primeiras trocas de olhares.
Eram meados da década de 70. Ele, com seus vinte e poucos anos, lia a “Gazeta” e se assustava com os antagonismos – crise do petróleo, rock in roll e a tão sonhada democracia ainda longe.

Ela, com seus 18 anos recém-completados, escrevia poesia e, nos intervalos, estendia roupa na varanda.

Os dois moravam na mesma rua: a querida 326. Há anos viviam separados por uma pequena distância, mas incrivelmente não se conheciam o suficiente. Vez ou outra se encontravam nos arredores do Colégio Bandeirantes, mas a timidez e a correria em que se permitiram entrar impediam um contato maior. Não foi coisa simplesmente do destino. No amor, acredito eu, não tem dessas coisas.

Era para ser mais uma noite bucólica. Os dois jovens, cada um no seu canto, cuidavam de suas atividades. Veiga, ao encompridar sua leitura, foi interrompido pela vista da sacada do outro lado da rua. Onde estava ficou embevecido ao observar a sua “antiga” vizinha. Parecia ter algo diferente, algo ocultado pelos anos da adolescência, uma beleza sem tamanho, uma simplicidade escondida ali, tão pertinho. A jovem notou a presença daqueles olhares e, diante da cena, correspondeu àquele início de coisa boa que acabava de surgir.
Eles foram espertos o suficiente para continuarem essa história. Aquela noite foi apenas o prefácio de um romance real, duradouro e desafiador.

Agora, depois de um bom e saudoso tempo, o Sr. Veiga apontava, com lágrimas escorrendo pela face já enrugada, à varanda hospedeira daquele amor. A Srª. Margot com sua delicadeza, não perdida pelos anos, limpava o rosto do seu amado e o abraçava ternamente, sem saber ainda se, ,quando tudo começou, era outono ou primavera.





 

Quando a alma se cala e o coração grita

24/05/2016 09h03 - Atualizado em 24/05/2016 09h15

Lia Raquel

Eram jovens ainda quando se conheceram. Como dois apaixonados, seguiram aquela fase ‘romântica de ser’: namoraram, ficaram noivos e se casaram. Tiveram filhos e netos. Inventaram sonhos. Construíram uma vida.

Abruptamente ideais foram interrompidos e muitos sonhos ficaram pela metade. A doença levou aquele Senhor ao pó da terra. A sua amada foi levada também, mas pela saudade e pela dor quase intermináveis. A vida, antes colorida, agora permanecia escura. A primavera de sentimentos sempre tão presente no lar dos dois foi tomada por doses invernais de tristeza e lágrimas carregadas de tortura.

A cadeira de balanço, antes usada por ele, seguia inerte e sem função. Os jornais, outrora lidos e rabiscados, estavam jogados no canto da sala. O cachecol xadrez e a bengala desgastada já não mais eram usados. A velha boina, guardada desde a época dos primeiros anos de casamento, mantinha-se no suporte próximo ao guarda-roupa.

O pesar era grande e as lembranças também. Eles viveram por muito tempo sendo “um”. A morte chegou sem aviso prévio e seguir com essa notícia foi fatigante o suficiente para acorrentar o coração daquela que ficara.

A alma da senhora apaixonada estava cansada. Sua coluna parecia sopesar ainda mais. O seu auxílio para andar era o ombro do amado, doravante precisava dos móveis como apoio. Nada fazia sentido. O sentido estava morto. Sua poesia, presentemente estava fúnebre; seus versos, adormecidos. Seu sentimento era incapaz de seguir sozinho. Seus braços chamavam por aqueles braços fracos, envelhecidos, mas que eram seus, totalmente seus.

Os cabelos dela pareciam clamar pelo cafuné recebido todos os dias depois do lanche das cinco. Agora, apenas uma xícara, uma colher, um prato. Agora, um guardanapo, uma toalha, uma escova de dente. Aquele conjunto de objetos a martirizava de uma forma inexplicável!

Com o passar das horas, a alma permanecia em silêncio, mas o coração não parava de gritar. Ela se deu conta de que, se ali ele estivesse, jamais quereria vê-la com os olhos lameados de pranto. Ela não o tinha mais ao lado, mas muitas eram as lembranças. A história dos dois foi tão intensa e agradável que deixou marcas de um amor capaz de superar até a mais horrenda dor.

Lá estava a Senhora acariciando o porta-retratos com a última foto tirada em vida – ela sorrindo de forma espontânea e ele a rodeando com um abraço afetuoso. Cenas daquele amor puro, verdadeiro e infindável demoravam em sua mente. As marcas da história deles continuavam vivas.

O outono parecia ter chegado àquele lar. As recordações estavam todas no chão daquele coração solitário, mas a árvore do afeto permanecia em pé e assim seguiria no rumo das coisas boas que vivenciaram.

O coração daquela Senhora enamorada passou a ter a certeza de que na eternidade os dois se encontrariam. Quando e como, ela não sabia, mas enquanto isso decidiu ficar acompanhada, não pela solidão, mas pelos doces, preciosos e amoráveis momentos que desfrutaram juntos. Coisas de amor.

PS: Baseado em uma história real.