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Memória

PEDRO AFONSO – 170 ANOS

Voluntários Holandeses em Pedro Afonso – 50 Anos

06/10/2017 13h53 - Atualizado em 30/10/2017 08h09
Voluntários Holandeses em Pedro Afonso – 50 Anos Fotos: Paul Zuidgeest

E assim começou a evolução agrícola...

Baseada em Cora Coralina, “feliz aquele que transfere o que sabe...” é que desejei partilhar a felicidade de poder recordar e congratular a história dos Voluntários Holandeses em Pedro Afonso, na década de 60, com gratidão e apreço. Um privilégio, ter convivido com os personagens desta rica página de nossa história.
Valioso trabalho que completa 50 anos de experiência única, dedicação exemplar e sucesso. Época do pontapé inicial na inserção de novas técnicas agrícolas, conhecendo nossa agricultura tradicional, inovações da era moderna.

Homenagem especial para Martien, Paul e Geraldo, extensiva ao Dr. J. Ohler e Drª. Carina Giezeman.

A Equipe composta por cinco moças e três rapazes holandeses chegou em 27 de julho de 1967, no Rio de Janeiro, e foi encaminhada para o CENFI (Centro de Formação Intercultural). Instituição presidida por Dom Helder Câmara, sediada em Petrópolis – RJ, cujos objetivos, além de outros, promover o intercâmbio cultural entre os povos do Continente Americano; desenvolver pesquisas, sobre cultura, social, língua, costumes, economia, agricultura, do nosso país.

As moças seguiram para um projeto de Assistência Social em Paranapanema (SP), os rapazes para Pedro Afonso (GO), para executar um projeto agrícola. Em Petrópolis (RJ) receberam uma Rural Willys, 0 km da Embaixada da Holanda, como ferramenta de trabalho. A 13 de agosto, partiram rumo a seus destinos, Dr. J. Ohler, Geraldo, Paul e Martien. Rota: Belo Horizonte, Brasília, Porangatu, Miracema do Norte, onde deveriam se apresentar a Dom Jaime Collins. Não o encontrando, por estar na Europa, o fizeram aos Padres Cícero José de Sousa e Rui Rodrigues. Transmitidas as boas vindas, informações sobre a cidade e com muita coragem, seguiram para Pedro Afonso.

Por decisão do governador Otávio Lage, e do Secretário da Agricultura, Antônio Flavio de Lima, fora indicado Dr. Carim Abdalla como orientador e assistente do projeto. Ambos, Abdalla e Ohler, sumidades em agricultura, renomados no Brasil.

Por fim, em 18 de agosto de 1967 chegaram à Terra de Taggia. Com o aprendizado do Português iniciado em Amsterdam e no CENFI, dava para conversar com as pessoas. Alheios ao que os esperava, logo retomaram às aulas de Língua Portuguesa com a professora Iolete Aguiar. Desafios a enfrentar e superar. Solteiros, bonitos, olhos claros, pele muito branca! Estudados, simpáticos, finos na educação e na profissão. A execução do projeto agrícola seria na Escola Agro Artesanal, “menina dos olhos” de Dom Jaime. Surpresa para todos, povo e Padres, tamanho o arrojo dos rapazes.

Chegada não estava prevista para aquele dia... Tiveram que hospedar-se na Casa Paroquial, depois na Casa das Freiras, transferidos em seguida para o Hotel dos Viajantes, de D. Santinha e Sr. João de Melo, que os adotaram como filhos. Por fim, instalaram residência em frente ao hotel, Casa dos Voluntários Holandeses, com direito a letreiro na fachada (hoje demolida). Mais conforto e espaço para o trabalho. Ambiente atraente, cheio de novidades. No quintal montaram, digamos, um mini zoológico, construíram cerca de buriti, jardim de inverno. Espaço aconchegante e acolhedor tornou-se ponto de encontro de amigos, estudantes, vizinhança e meninada, com curiosidade aguçada. Com eles conhecemos o “gravador toca fita”, a pilha.

Aos poucos, convivendo com as pessoas, melhoraram o português, entrosaram com novos hábitos e costumes, conheceram diferentes alimentos. Aprenderam rápido! Adotaram nossa cultura, povo, festas, clima, curtiam os babaçuais e a agricultura. Registravam tudo através de fotos, anotações, filmes, correspondências. Contato com a Holanda, feito por via aérea, pela Varig, por quem éramos bem servidos.

Instalaram um laboratório fotográfico rústico, porém eficiente, criando um forte vínculo com Colemar Xavier, iniciante na profissão. Trocavam conhecimentos e experiências no ramo. “Era do monóculo”! Como não esquecem nada, lembram até a famosa bicicleta enfeitada do Colemar.

A administradora Drª. Carina Giezeman, holandesa, aqui chegou em 24 de agosto de 67 para acompanhar o trabalho, vindo a cada dois meses. Hoje com 85 anos de idade, lúcida e firme relembra fatos vividos e recebe homenagens daqueles que em diversos Estados do Brasil prestaram serviço voluntário.

Nossos benfeitores frequentavam todos os eventos, da cidade e do sertão, fizesse chuva ou sol, com ou sem atoleiros, em sua Rural Willys, sem medir dificuldades. Aprenderam a suportar o calor causticante, dormir em redes, comer e apreciar churrasco no espeto de vara, andar a pé por quilômetros e quilômetros quando a Rural “pifava” nas estradas, sem socorro ou por falta de combustível. Participaram da festa da “Libertação dos Jegues”, dos famosos desfiles de 7 de Setembro, festejos de São Pedro, carnavais, dos quais têm registros memoráveis. Acompanhavam o Prefeito, inesquecível Sr. Ademar Amorim, nas comitivas de inaugurações de pontes, estradas, sertão adentro.

Multi profissionais, do trator ao cabo da enxada. No trabalho agrícola, atendiam a todos com muita presteza, disposição e amizade. Montavam experimentos variados de grãos, gramíneas, frutas, hortaliças, instalação de “carneiros” para bombear água e tantas inovações. Trabalhavam a terra com dedicação. Conheciam pelo nome as pessoas da cidade e redondeza. Não esquecem o Juvenal, com quem trabalharam.

Dr. Ohler a cada visita sentia-se muito contente com o sucesso e resultados positivos dos experimentos ou ensaios.

Em 25 de setembro de 1967 recebem a visita relâmpago do Governador e Secretário da Agricultura, em quatro aviões pequenos. Em seguida Dom Jaime. Saldo, positivo.

O referido projeto era de iniciativa da Organização dos Agricultores Católicos da Holanda e da Organização dos Jovens Agrícolas Católicos da Holanda em conjunto com o Instituto dos Voluntários Holandeses do Ministério do Exterior da Holanda.

Impressiona-me, o amor que cultivam até hoje por nossa Terra e nossa gente. Em recente reencontro na Holanda, ouvimos de Martien: “Não apago da memória a lembrança de um tempo muito feliz em minha vida”.

Um bom livro, escrito por eles, registraria centenas de acontecimentos célebres.

Permitam-me nesta oportunidade, em nome dos pedro-afonsinos, reconhecer, parabenizar, e agradecer a toda equipe de Voluntários Holandeses, pelo bem transferido, pela amizade cultivada e conservada, por tantos ensinamentos deixados.

Sincera gratidão os Drs. Ohler in memoriam, Carina e Abdalla, pela disponibilidade e compromisso em executar um projeto pioneiro em terra tão longínqua. A Dom Jaime, in memoriam pelo esforço e dedicação ao tentar melhorar nossas condições de vida agrícola na região. A todos que contribuíram para que tudo acontecesse.

Semente lançada e germinada. Partem nossos jovens com a consciência leve pelo dever cumprido, e o coração transbordando de saudades. Seguem para nova jornada em Paranapanema, a 06 de janeiro de 1969. Deixam-nos, grandes lições e a esperança de próspera colheita.

As redes sociais os reaproximaram de Pedro Afonso, embora Martien tenha voltado aqui anos depois. Certeza que amam o Brasil, pois acompanham toda a evolução agropastoril, econômica e social de nosso Município.

Parabéns por estes 50 Anos comemorativos. Bodas de Ouro!

Que Deus os abençoe e aos seus familiares. Recebam meu caloroso abraço, de minha família e dos pedro-afonsinos. Cá estamos de braços abertos para recebê-los sempre.

Obrigada, sejam felizes!

Odina M. Sá de Andrade
Professora Aposentada











                   

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