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Turismo e Meio Ambiente

60 MIL QUILÔMETROS

Navegador passa por Pedro Afonso em nova expedição pelos rios brasileiros

20/09/2018 12h19 - Atualizado em 25/09/2018 10h21

Henrique Lopes

Quem visitou a Ilha do Rio Tocantins, em Pedro Afonso, esta semana, teve a grata surpresa de encontrar, ocupando uma das barracas que ainda lembra a temporada de verão do mês de julho, o aposentado Aladir Murta, de 81 anos.

Essa foi a terceira vez que passou por Pedro Afonso e a primeira em que parou por um período.

O navegador, que segundo revistas especializadas é considerado o maior navegador solitário do mundo tendo percorrido 60 mil quilômetros pelos rios brasileiros a remo, já foi chamado de doido por personalidades como Jô Soares, mas é admirado pelo desprendimento, coragem e carinho pelo meio ambiente, sendo destaque em diversas publicações nacionais e internacionais.

Presidente da Associação de Proteção ao Meio Ambiente do Rio Araguaia e Ilha do Bananal, Murta já percorreu milhares de quilômetros em mais de 30 rios de todo o país, tendo como companhia apenas a paisagem e os animais que cruzam, diariamente, o seu caminho.

Nascido num encontro de rios em Itira, distrito de Araçuaí, e criado em Coronel Murta, cidades do Vale do Jequitinhonha, o mineiro sempre foi ligado as questões ambientais. “Todo o planeta terra está contaminado com o vírus da destruição e eu sou um ambientalista e defensor da natureza, defendo os recursos naturais em qualquer lugar que eu estou. Hoje eu sou um amante da natureza e da navegação”, afirmou o ex-lapidário de pedras preciosas.

Ao falar sobre as expedições pelos rios brasileiros e alguns da América do Sul, Aladir se emocionou ao lembrar do que deixou para trás. “Se eu contar as pessoas que deixei tudo para morar em uma barraca e navegar em uma canoa, elas não acreditariam, mas é isso é o que me faz bem, é isso que me deixa feliz. Eu enjoei da sociedade, aqui é o meu lugar”.

Aventureiro por vocação, o aposentado já rodou pelas estradas brasileiras e da América do Sul como motoqueiro, mas foi na navegação, sua maior paixão, que encontrou o verdadeiro contato com o mundo que desejava. A paixão pela navegação, que já completa 18 anos, iniciou com a criação do projeto ambiental Viagens Ecológicas pelos Rios do Brasil (Verb), no ano de 2000. “Quando eu criei o projeto Viagens Ecológicas pelos Rios do Brasil, as pessoas diziam que estava doido, pois eu tenho um cronograma, mas não sei quando nem como eu chegarei ao meu destino final. A minha aposta é que eu navegaria um quilômetro, se conseguisse, iria mais um e assim por diante. Hoje eu tenho registrado 60 mil quilômetros navegados pelos rios brasileiros”, contou.

Entre um dos desejos no início das navegações estava conhecer a Ilha do Bananal, maior ilha fluvial do mundo. “Eu sabia muito por leitura, mas nunca tinha tido a oportunidade de conhecer a Ilha do Bananal, quando cheguei a primeira vez ao local, havia um evento político, não me deixaram ter acesso, mas hoje eu sou presidente de uma ONG que ajuda a preservar a ilha”, relatou.

Sobre as diversas expedições que já percorreram mais de 30 rios, o navegador solitário diz ficar impressionado com a imensidão da natureza. “Eu já tive acesso a grandes eventos e grandes cantores, nacionais e internacionais, mas observar o canto dos pássaros, durante essas viagens sozinhos, faz com que as coisas ganhem novo sentido, revelou Murta.

Muitas experiências
Há 18 anos acompanhado da própria solitude, Murta leva consigo, na canoa de fibra de caborno de pouco mais de quatro metros de comprimento, além dos mantimentos, uma rede e uma pequena barraca, algumas lembranças da sua história, recorte de jornais, revistas nacionais e internacionais, além de um livro escrito pelo jornalista Antoninho Rossini, que ajuda a contar um pouco do feito do recordista mundial.

Questionado sobre o medo de navegar solitário pelas águas brasileiras, Aladir Murta afirmou que já vivenciou experiências terríveis, mas que nunca deixará de navegar. “Eu já quebrei os dois braços em uma descida no rio, já fui assaltado, já vi rituais indígenas que me deixaram impressionados, pessoas mortas, isso não me assustou de início? Sim, mas era algo que a gente aprende a lidar depois”, descreveu.

Homem de fé, apesar de não ter religião, só revelou ao final da entrevista, o seu maior medo: o de parar de navegar. “Eu nunca irei parar de fazer isso. E se um dia eu morrer peço que me deixe na água, não quero que me levem e me enterrem ao lado de políticos, ladrões, estupradores, quero que me deixe aqui, no lugar a que eu sempre pertenci”, completou.

  

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