

Srêwē da Mata de Brito Xerente
Líder indígena do povo Xerente
A rodovia TO-010 ocupa uma posição estratégica no coração do Tocantins e do Brasil. Em seu entorno vive o povo indígena Xerente, hoje a maior população indígena do estado, com crescimento contínuo ao longo das últimas décadas. Habitamos duas Terras Indígenas, a Terra Indígena Xerente e a Terra Indígena Funil, localizadas a cerca de 75 quilômetros de Palmas, o que reforça a relevância social, cultural e política dessa região.
Há mais de vinte anos, a pavimentação da TO-010 é tema de um debate sensível e, muitas vezes, polarizado. No entanto, esse debate não deve ser reduzido a uma falsa escolha entre preservar ou desenvolver. O verdadeiro desafio é conciliar direitos legítimos: respeitar os povos indígenas, proteger o meio ambiente e, ao mesmo tempo, garantir condições dignas de vida e desenvolvimento para as populações indígenas e não indígenas que vivem no território.
Manter povos indígenas em situação de
semi-isolamento não é uma alternativa viável no século XXI. Também não é
possível exigir melhorias reais em educação, saúde e segurança pública sem
infraestrutura adequada. Estradas precárias encarecem políticas públicas,
dificultam o acesso a serviços essenciais, isolam comunidades no período das
chuvas e limitam as oportunidades econômicas e sociais.
Ao mesmo tempo, instituições fundamentais como a
FUNAI, o Ministério dos Povos Indígenas, o IBAMA e a SESAI enfrentam restrições
orçamentárias e dificuldades operacionais. Nesse contexto, torna-se ainda mais
urgente fortalecer o etnodesenvolvimento nos territórios indígenas, promovendo
autonomia, protagonismo comunitário e sustentabilidade.
Os territórios indígenas cumprem um papel central
na proteção ambiental, mas também possuem potencial produtivo, desde que
utilizado de forma planejada, limitada e responsável. A produção em pequena e
média escala pode gerar renda, fortalecer comunidades e impulsionar o
desenvolvimento regional sem comprometer a integridade dos ecossistemas. Fechar
completamente as portas dos territórios à circulação de oportunidades é como
manter um grande mercado de riquezas sociais, culturais e ambientais
permanentemente trancado. Abrir caminhos, de forma pactuada e responsável, é
permitir que essas riquezas circulem em benefício coletivo.
Nesse sentido, a pavimentação da TO-010 deve ser
vista como um instrumento de integração e não como uma ameaça. O asfalto
encurta distâncias, reduz o custo do transporte, facilita o acesso a serviços
públicos, estimula o comércio local, o turismo responsável e o escoamento da
produção. Ele promove integração física, social e cultural, aproximando regiões
historicamente isoladas e rompendo ciclos de vulnerabilidade.
Além disso, estradas seguras são uma questão de
cidadania e de vida. Durante o período chuvoso, vias de terra se tornam
intransitáveis, impedindo o socorro médico e o abastecimento de comunidades. O
asfalto garante acesso permanente, previsível e seguro, permitindo a presença
contínua do Estado e a efetivação de políticas públicas.
Para os povos indígenas, a infraestrutura não
precisa ser sinônimo de perda, mas pode ser ferramenta de fortalecimento. Com
acesso facilitado, as comunidades ganham melhores condições para gerir seus
territórios, comercializar sua produção de forma autônoma, acessar mercados
mais justos e participar ativamente dos espaços de decisão. Desde que planejada
com participação efetiva dos povos indígenas e respeito aos territórios
tradicionais, a pavimentação pode ser vetor de empoderamento e
autodeterminação, e não de erosão cultural.
Por isso, a pavimentação da TO-010 entre Pedro
Afonso, Tocantínia e Lajeado transcende uma simples obra de engenharia. Ela
representa a possibilidade de construir um futuro mais justo, integrado e
sustentável, onde o progresso material caminhe junto com a dignidade humana, a
inclusão social e a responsabilidade ambiental.
O verdadeiro desafio não é o asfalto em si, mas
garantir que ele venha acompanhado de diálogo permanente, planejamento conjunto
e compromisso inegociável com os direitos de todos, especialmente daqueles
historicamente mais afetados pela ausência de infraestrutura. O asfalto, nesse
sentido, pode ser a base física de uma rede de oportunidades que beneficie todo
o Tocantins em sua rica e diversa pluralidade.
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